domingo, 27 de novembro de 2016

Sobre Fidel e Cuba


 Por João Castro

“Vi ontem um bicho, na imundice do pátio,  catando comida entre os detritos...

Foi assim, era 10 horas da manhã e uma mãe, ainda adolescente, completamente fora de si,  talvez por falta de comida e carinho,  abandonou a filha de 1 ano e pouco no meio do asfalto e foi embora.

Completamente transtornada, a mãe, com outro filho de mais idade no carrinho de bebê, bradava com palavras inaudíveis o seu desespero.

As pessoas assistiam a tudo e nada diziam, os que cochichavam  alguma coisa era pra criticar a sua cor, ela era negra.

Ninguém queria saber o porquê daquele momento de cólera.

Não importava, quem tinha comida em casa e crença que tinha uma família feliz, apesar da infelicidade dos outros, estava feliz.
      
E a criança ficou ali por alguns angustiantes minutos.

O Avô, bebia num bar em frente e nada fazia, a dona do bar,  pegou a criança e levou para perto do avô que permaneceu indiferente a presença da neta.

Estava mais interessado na sua bebida.

A criança perambulou pela frente das lojas, sozinha e triste, pedindo atenção e carinho de alguém.

Mãe, pai (ausente) e avô indiferente, abandonaram a criança que já nasceu excluída.

Em Cuba essa imagem não seria vista,  as crianças e idosos tem atenção especial.

Em Cuba, onde tudo é modesto, jamais faltará atenção as crianças e solidariedade ao próximo.
Ontem, após a notícia da morte de Fidel, vi muita gente feliz e sorrindo pras paredes...

Diziam que Cuba acabaria.

Ledo engano, o povo cubano aprendeu nesses tempos difíceis, que uma sociedade só se constrói quando todos tem oportunidades iguais e são livres.  
 
...O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem”.
                                                                     Manuel Bandeira


João de Castro é militante do PCB e produtor de Cinema e TV

Fidel, um comandante revolucionário.


Por Pedro César Batista

Ser comandante de um processo revolucionário, capaz de conduzir a libertação do seu povo do julgo colonialista, que era obrigado a viver na miséria, sofrendo a violência contínua, provocada pelo grupo que usava o Estado para atender os seus amigos norte americanos não é para qualquer um.

Ser capaz de unir as forças políticas da resistência, organizar a luta, construir uma força popular capaz de enfrentar o império mais poderoso e sagrar-se vitorioso, dando a seu povo uma qualidade de vida que assegura a toda a sua população a satisfação de suas necessidades.

Ser uma voz que conseguiu sintetizar a história secular da resistência, desde os ensinamentos de Máximo Gómez, Antônio Maceo e José Martí, capaz de honrar os exemplos dos revolucionários cubanos do Granma e da Sierra Maestra e que tombaram, como Ernesto Guevara, Camilo Cienfuegos, Frank País e Célia Sanches.

Ser o comandante durante a invasão da Praia Giron, derrotando os mercenários financiados pelos norte americanos e resistidos a um criminoso bloqueio econômico que permanece há décadas, impedindo a entrada de componentes básicos para a indústria e a economia do país.

Ser uma liderança respeitada, amada e admirada por seu povo, que lhe dedicou todo o amor, cuidado e empenho para construir e garantir a efetivação dos planos econômicos que asseguram a estabilidade e justiça social a todo o seu povo.

Ser o comandante durante o período especial, quando o povo cubano foi chamado a se unir para enfrentar o colapso econômico, vivido no início da década de 1990, tendo o povo cubano conseguido superá-lo e vencê-lo, retomando o crescimento e garantindo a revolução socialista.

Ser o comandante de um povo que, quase em sua totalidade está organizado, tem o controle da segurança, economia, educação, saúde, lazer e do Estado, capaz de enfrentar qualquer ameaça e saber ousar, ser criativo, superar as dificuldades e seguir a construção de um Estado socialista.

Ser capaz de ter o apoio de seu povo na prática revolucionária internacionalista, estando ao lado de povos oprimidos em todo o mundo, lutando pela independência, combatendo os opressores colonialistas ou imperialistas e executando a solidariedade com profissionais em educação e saúde.

Ser sobrevivente, após sofrer dezenas de tentativas de assassinatos, além de uma insidiosa campanha de calúnias e mentiras contra a sua integridade e honra, comprovadas ao longo de sua vida, como um revolucionário e dirigente da revolução.

Ser um exemplo de Comandante em Chefe que não se encantou jamais pelo poder, pela força que possuiu, pelo novo que simbolizou e construiu, ao lado de seu povo e camaradas do Partido Comunista de Cuba.

Fidel Castro Ruiz é dos dirigentes revolucionários que nunca morrem, pois sua vida, seguirá sempre servindo de luz, ensinamentos e força capaz de inspirar a busca de uma sociedade socialista, justa, igualitária e fraterna.

Fidel sempre estará presente nas lutas dos trabalhadores e trabalhadoras da cidade, do campo, da juventude, das mulheres, dos povos nativos e dos oprimidos que não se sujeitam ao julgo das mentiras e da exploração da burguesia e do imperialismo.

Fidel sempre será uma semente brotará em qualquer solo, espalhando a energia para que a emancipação e a dignidade humana sejam alcançadas.

Fidel viverá sempre nas poesias das lutas nas ruas, fábricas e nos punhos erguidos, dispostos a viver até a eternidade.

Venceremos!!!
     


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Dá e não da na globo!!!



No meio do caminho tinha um apartamento.
Foi assim com JK para justificar o golpe militar,
Mesmo não sendo dele, a imprensa o imprensou e foi dado o golpe.
Muitos anos depois, já morto, a constatação: o apartamento nunca fora dele.

Depois veio FHC, com um vistoso apartamento em Paris, na Avenue Foch  com vista para o Sena; esse, sim, era o apartamento. Mas era do Jovelino. Depois não era, era mesmo do FHC.
Alguns “petralhas” denunciaram por conta do valor.
Como são bestas esses “petralhas”! O que são 11 milhões de euros para um professor aposentado?
Nada.
Todo professor pode, até aqueles que se aposentam antes dos 50,
Ou aqueles que dão aula no Estado do Rio de Janeiro na era Cabral/Pezão. Esses podem mais.

Aécio também comprou um,  não qualquer um, mas uma cobertura no Rio de Janeiro, na Epitácio Pessoa, de frente para a Lagoa
, no Rio de Janeiro. Afinal, todo político mineiro tem que ter apartamento no Rio, né? Pagou somente a bagatela, a pechincha,  black friday, de míseros 109 mil reais – pouco para um milionário dono de rádios, jornais  etc.
 Esse sabe fazer negócio! Um apartamento nesse endereço, adivinha o valor? Só 8 vezes o valor daquele apartamento do Lula, no Guarujá: algo em torno de seis milhões e meio. 
Não deu na Globo.

Depois veio o de Lula, no Guarujá, um tríplex. Comprado ou dado ou comprado e devolvido? Não importa, é propina. Custa R$ 800 mil reais.
Onde já se viu? Um torneiro mecânico presidente não pode ter um. Mesmo que ele faça palestras pelo mundo, receba em U$ e coisa e tal, dizer que comprou e devolveu, não cola:  é dele!
E ele ainda tem outros luxos, uns barquinhos de lata.  
Quem deu foi a Odebrecht.
Deu na globo.
Aliás, o do JK e do Lula, isso sempre deu na globo.
Depois foi a OAS quem deu. Deu e reformou, o porteiro viu.
A OAS disse que sim, depois desdisse, então chamaram o Paulo Roberto Costa para dizer  “sim” e ele disse “não”.
Que ruim, né, Seu Juiz? O que fazer?
Chama o Cerveró, ele vai dizer que sim.
Mas ele também disse “não”. E agora? Agora, no meio do  caminho, aparece outro .

E o  outro que aparece – e não dá na Globo – é do Geddel. Vale uma ninharia, algo em torno de 7 vezes o que vale o do Lula.
Mas não interessa, o Geddel é aposentado, trabalhou muito, se aposentou aos 51. Ele pode ter, sim, um apartamento desse valor.  Afinal, com um salário de aposentado, pode.
Aliás, todo aposentado no Brasil pode ter um, mesmo que a construção seja irregular. O que importa é que aposentado pode ter, basta querer.
Se a lei não deixar, demite o ministro que quer irritar o aposentado. Onde já se viu alguém irritar um aposentado?
Até aquele presidente sem voto entrou na história e convocou a ministra do TCU para ajudar o aposentado.
Mas tudo isso ainda  não deu na Globo.
Será que um dia vai dar?
Duvido muito. 

João de Castro é militante do PCB e produtor de cinema e tv.





sábado, 12 de novembro de 2016

Resistir é uma necessidade!!!


Por PEDRO CESAR BATISTA 

Despolitização programada

Nunca foi diferente na história da humanidade a luta entre oprimidos e opressores. As oligarquias sempre atuaram com todas as forças para manter o controle do Estado. Em nenhum momento as classes dominantes vacilaram em fazer uso da violência, propagando calúnias, aplicando a tortura e assassinado os que ousam lhes enfrentar. Para isso, utilizam todos os meios para propagar suas mentiras, tornando-as sagradas, as quais acabam sendo repetidas por setores que não conseguem entender que estão sendo manipulados pelos seus opressores.

Há uma ação planejada para que a luta por justiça seja pulverizada. Difundiu-se o discurso de que o que importa é o empoderamento do indivíduo, do grupo ou de um segmento. Os opressores propagam que não há mais explorados nem exploradores, que é preciso haver harmonia entre as classes. Afirmam através de seus intelectuais chapa branca, que os tempos são outros e que os estamentos sociais são outros. Assim, as classes dominantes, sustentam uma fragmentação social autofágica entre os setores da classe trabalhadora e das camadas populares. Esse discurso não é novo, os opressores sempre souberam colocar novas roupagens, a continuarem controlando as riquezas, o conhecimento e o Estado, enquanto preservam a maioria sujeita a exploração. Vivemos um tempo em que cada indivíduo é mais importante que o outro e cada segmento tem que lutar pelos seus interesses, usando, para isso, as brechas existentes dentro do estado burguês.

A negação das lutas entre as classes sociais, propagada por universidades e os meios de comunicação, garante que este discurso seja replicado pela população. Inclusive setores, que utilizam conceitos da modernidade e do alto desenvolvimento tecnológico, apropriaram-se desses conceitos disseminados pelos que controlam as riquezas e o Estado, chegando a negar a história, as experiências das lutas dos trabalhadores e abandonando o futuro, preocupado apenas com o bem estar seu ou no máximo de seu grupo no presente.

Desmonte de políticas sociais

Em 1822 se fez um acordo e se implantou o império do Brasil. Uma Assembleia Nacional Constituinte foi convocada e cassada em 1823. Acontecia o primeiro golpe. Em 1889, sem o povo ver, nasceu uma Republica de faz-de-conta, que em uma década depois massacrou os moradores de Canudos, que desenvolveu uma comunidade fraterna e solidária, liderada por Antônio Conselheiro. Veio 1930, um no golpe, outros no poder, que inicia, com Getúlio Vargas, pela primeira vez, a implantação do Estado nacional. Segue atendendo os interesses das oligarquias latifundiárias e dos serviçais do império.

Ditaduras se sucedem. 1937, o Estado novo, em 1964, os militares. Liberdade e garantia de direitos sempre concedidos em conta gotas. Importa manter o controle. O mesmo foi feito em 1979, resultado de um acordo entre os ditadores e a burguesia nacional, com a concessão de uma anistia que garantiu aos assassinos e torturadores de 1964 a impunidade. A Constituição Federal de 1988 trouxe a esperança de que viria um novo tempo. 

Pouco mais de duas décadas de investimentos em ações públicas, após a Constituição de 1988, criaram uma rede social e iniciou a implantação de ações estatais para atender aos mais necessitados. A eleição do PT aumentou a expectativa. Políticas sociais de inserção social, o aumento do acesso a bens de consumo, tudo, sustentado em uma forte aliança com o grande capital. Iniciava-se uma fase em que senhores e trabalhadores estavam sentados na mesma mesa - ou viajavam no mesmo avião. Uma crescente mudança na base da pirâmide. E um enxugamento no topo. Os ricos ficavam mais ricos. Os pobres felizes acreditaram que um dia seriam patrões, poderiam ter seus serviçais. Ilusão que logo se desfez.

Destacou a presidente Dilma Rousseff durante a sua defesa, durante a votação final de seu afastamento, no Senado Federal, em setembro de 2016, que o governo do PT não havia traído o acordo feito em 2002 com a classe dominante, mas que considerava rompida a aliança, a partir da decisão que estava sendo tomada pelo seu afastamento definitivo da Presidência da República.

Pela segunda vez, desde a retomada da eleição direta para Presidência da República, em 1989, cassaram o maior mandatário do país. Agora a primeira mulher eleita presidente da República, era substituída por seu vice, um inexpressivo político, representante das oligarquias paulista, assumia o lugar. Seu papel era claro, garantir o desmonte das políticas assistenciais e assegurar o desmonte da economia nacional, com a entrega da Petrobrás e a quebra de empresas nacionais. A PEC 241/55 cumpre o papel de garantir que os banqueiros e capitalistas sigam roubando o estado, que seguirá pagando os juros da dívida, sem realizar a auditória necessária, enquanto limita e congela os gastos com a realização das políticas públicas sociais.

O STF, mais uma vez na história nacional, cumpria seu triste papel, assegurar que a oligarquias não percam o controle do aparelho do Estado e efetivar a criminalização da esquerda e setores que ousam resistir. Sérgio Moro, um juiz federal de primeira instância, que se tornou herói nacional para a classe média, desempenha o papel de inquisidor chefe. A Constituição Federal se torna letra morta. As garantias individuais e coletivas são jogadas aos porcos. E a mídia, usando concessões públicas, replicam, como água dura em pedra dura, as mentiras e discursos saídos de reuniões dominicais entre amigos que se reúnem no Palácio da Alvorada, do Jaburu ou no Jardim Botânico. Tudo, planejado, minimamente, é executado pelos responsáveis. A imprensa acusa, a justiça prende, o governo golpista e o parlamento executam o desmonte das políticas assistenciais. Cada ator exerce um papel. Até o povo, que aplaude e vota nos seus inimigos, acreditando nas mentiras difundidas como fossem verdade.  

Resistência espontânea

Mesmo os partidos políticos considerados de esquerda, que ao longo da história recente ou não, estiveram ao lado dos explorados e deserdados na defesa da justiça, esqueceram o caminho das portas de fábricas, das lutas no campo, das escolas e das periferias. Muitos de seus dirigentes se acostumaram com salas com ar refrigerado, confortáveis sofás de couro, muitos serviçais e o usufruto de todas as prebendas que o Estado oferece aos burocratas. Com muitos sindicalistas não foi diferente. São poucas as exceções dos que seguiram junto, lado a lado, com os pobres e trabalhadores, trabalhando para a construção de um novo mundo. Organizações mais fortes, quando deveriam ocupar as ruas e resistir para barrar o processo de desmonte das parcas conquistas obtidas após a redemocratização, agora estavam com discursos mais elaborados, replicando-os em redes virtuais e planejando como ganhar a próxima eleição. Assumir erros, fazer autocrítica e repensar a prática, buscando construir uma unidade programática, orgânica, capaz de refazer a luta e fortalecer a resistência ainda não estavam nas conversações. Alguns setores iniciavam uma fase de acusações.

O movimento sindical tem realizado lutas importantes, porém sem conseguir mobilizar as bases da classe trabalhadora. Manifestações chamando para greves gerais têm conseguido realizar atos, passeatas, ocupações de prédios públicos e distribuição de materiais de denúncia para a PEC 241/55 e o desmonte das políticas sociais em andamento pelos golpistas. Não há unidade das centrais sindicais, nem da base sindical. Movimentos importantes atuam isoladamente, o mesmo que o sindicalismo faz. Lutas e ações, que deveriam ser unificadas, seguem dispersas.

A juventude, de forma corajosa, tem alastrado por todos os cantos do país seu brado de resistência e defesa de direitos e da dignidade, denunciando a PEC 241/55 e a reforma do ensino médio. Centenas de escolas e universidades estão ocupadas por estudantes, que ousam enfrentar os golpistas de novo tipo, que seguem tendo suas mentiras propagadas pela mídia criminosa, diante dos graves atos que o golpismo está executando. A mídia, quando divulga a mobilização dos jovens, tem a finalidade de caluniar. Em nenhum país no mundo, nem a mais dura ditadura ou governo ultra liberal, tentou congelar os investimentos sociais do Estado por duas décadas, como estes criminosos que assaltaram o poder desejam fazer. Por isso, os estudantes o repudiam e resistem. Ousam mostrar ao mundo e ao povo brasileiro que nem todos se perderam no caminho, que ainda tem que resiste e se disponha a defender a dignidade e direitos humanos.  

Reconstruir o futuro

Os estudantes que ocupam as escolas, por todo o país, simbolizam o futuro. Uma juventude que tem a disposição para enfrentar o poder das oligarquias, as mentiras da mídia, a força da polícia, os atos injustos dos juízes serviçais, a escuridão que o STF e o Parlamento brasileiros simbolizam. A juventude que tem a coragem da estudante Ana Júlia, que falou aos deputados paranaenses que eles tinham a mão manchada de sangue, do sangue do estudante secundarista assassinado dentro de uma escola no Paraná. Os estudantes são a brisa que vem nessa aridez humana, resultante da exploração capitalista, que destrói a vida e a natureza.

O tempo, apesar do retrocesso profundo em curso, aponta para o amanhã, para a formação de novas pessoas, que fortaleçam a solidariedade entre os explorados, que tenham disposição para enfrentar os poderosos oligarcas, nacionais e imperialistas, que somente querem manter seus privilégios à custa da dor, da miséria e da opressão aos mais necessitados.

Os estudantes e todas as pessoas que não se perderam em largos corredores de palácios saberão entender o momento histórico, contribuindo para que a busca pelo socialismo, de uma sociedade onde a justiça, a dignidade e a emancipação humana estejam asseguradas.

Há um aparente avanço dos setores mais reacionários em todo o mundo, isso é reação ao avanço das lutas dos trabalhadores, especialmente na América Latina, que conseguiu, com ações dentro da institucionalidade burguesa, obter importantes avanços nos direitos sociais dos trabalhadores e dos setores mais necessitados. O momento atual, com o golpe no Brasil, os ataques ao governo venezuelano, às ameaças de guerras, as agressões praticadas em todo o mundo pelo imperialismo norte americano e seus parceiros da OTAN, exige que as forças democráticas, populares e de esquerda retomem o debate sobre a construção da unidade na defesa das liberdades, dos direitos obtidos ao longo de séculos e da soberania nacional. É preciso enfrentar a direita que se sustenta em uma mídia criminosa, e em cima de erros que foram cometidos por governos democráticos que estiveram no poder, como no caso brasileiro. O exemplo dos estudantes brasileiros mostra a necessidade da construção da unidade e de uma ação articulada, que mobilize todos os setores, para enfrentar o momento cinzento que atravessamos. É preciso ousadia e luta para superar as agressões que se abatem sobre as conquistas dos trabalhadores.

Apesar da desconfiança, do individualismo, do medo e das traições é necessário direcionar a luta para a busca de um novo mundo, única forma capaz de assegurar a dignidade humana, com a construção do socialismo. Como disse Rosa Luxemburgo, ou é socialismo ou barbárie. Caso contrário, sucumbiremos todos. É preciso ocupar e resistir, seguir exemplo dos estudantes!

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Milícia legalizada

Empresas autorizadas pela PF fazem segurança de fazendeiros e grileiros. ‘Estado’ visita fazenda que virou foco de tensão no Pará e ainda guarda marcas do último tiroteio em casas e cercas
Homens da Atalaia Segurança e Vigilância, em ronda na Fazenda Cedro. Dida Sampaio / Estadão
Homens da Atalaia Segurança e Vigilância, em ronda na Fazenda Cedro. Dida Sampaio / Estadão
Uma das mudanças na política do campo na Era Lula e Dilma (PT) foi a criação do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), que disponibilizou para a safra 2015/ 2016 R$ 28,9 bilhões.  É uma linha de crédito que não existia no tempo do governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB).  Além disso, o Executivo deixou oficialmente de criminalizar os movimentos de pequenos agricultores.  A lição de barbárie de Eldorado do Carajás, porém, não trouxe mudança real à questão da violência.  As polícias deixaram de atuar, sob certa medida, na repressão a ativistas, mas o espaço seria ocupado por milícias contratadas por grileiros.
Do massacre de Eldorado até hoje, 197 pessoas foram assassinadas em conflitos no sudeste e sul do Pará. Um dos focos de tensão fica a 40 quilômetros da Curva do S. Famílias de sem-terra disputam a posse da Fazenda Cedro, de 8,3 mil hectares, sendo 80% da União. Histórias de terror marcam o Acampamento Helenira Resende, nome de uma guerrilheira morta pelo Exército em 1972. Ali vivem 450 famílias. A maioria dos adultos trabalha como peão e consertador de cercas nas fazendas próximas.
Em março de 2015, Francinaldo Souza da Costa, de 25 anos, pescava com outros três sem-terra numa grota, na divisa com a fazenda. Ele conta que seis homens armados da empresa Atalaia Segurança e Vigilância chegaram em um Fiat Uno e uma caminhonete. “Eles desceram dos carros. Mandaram fogo.” Pelo relato dele, um dos agentes atirou no chão próximo de onde estava o grupo e uma das balas bateu numa pedra e acertou a lente esquerda dos óculos que ele usava. A lente foi para trás e atingiu sua vista. Ele perdeu a visão do olho esquerdo. O episódio ficou registrado nos celulares dos sem-terra. Francinaldo está há dois anos no acampamento. Estudou até a oitava série do primeiro grau. Aos 5 anos, perdeu o pai, Compertino da Costa, goiano que chegou ao Pará nos anos 1970, morto a mando de um fazendeiro de Quatro Bocas, município de Itupiranga. A mãe, Emília Coelho de Souza, criou cinco filhos em assentamentos.
O sem-terra Francinaldo Souza da Costa, de 25 anos, mostra os óculos atingidos por balas que teriam sido disparadas por homens da empresa Atalaia Segurança e Vigilância, no Acampamento Helenira Resende, em Marabá. Dida Sampaio / Estadão
O sem-terra Francinaldo Souza da Costa, de 25 anos, mostra os óculos atingidos por balas que teriam sido disparadas por homens da empresa Atalaia Segurança e Vigilância, no Acampamento Helenira Resende, em Marabá. Dida Sampaio / Estadão
As terras do sudeste paraense são vigiadas agora por homens de empresas de segurança legalizadas pela Polícia Federal. No Pará de 2016, uma empresa de serviço de escolta armada se destaca no trecho entre Anapu e Eldorado do Carajás. Criada em 2002 em Araguaína, Tocantins, por Renê Rodrigues de Mendonça, um agente federal aposentado, a Atalaia Segurança e Vigilância domina o mercado de escolta de fazendeiros e grileiros. Antônio Lopes de França Filho, de 25 anos, líder do MST no Pará, dá o tom do relacionamento dos posseiros com os funcionários da empresa. “A escolta é a verdadeira pistolagem que tem liberação para matar”, acusa.
Camponeses relatam que, em agosto de 2009, seguranças da empresa mataram Wagner Nascimento Silva. Em outubro, a escolta da Atalaia e os sem-terra trocaram tiros por 20 minutos. A equipe de reportagem esteve na porteira da Cedro. Três homens fortemente armados chegaram logo depois numa caminhonete. Eles permitiram a entrada no local, que guarda marcas do último tiroteio. Foi possível ver casas e cercas destruídas. Um dos homens diz que o grupo está ali por causa dos bois. Seriam cerca de 10 mil cabeças. “A gente quer controlar a situação, a gente não quer matar”, afirma um deles. “O tiroteio foi mais ou menos à 1h30 da madrugada, não dava para enxergar nada”, diz, referindo-se à disputa de outubro. “Eles chegaram atirando, a gente só respondeu.”
A Cedro era área de concessão do governo estadual para retirada de castanha. Benedito Mutran, do clã que dominou o mercado de amêndoas entre 1950 e 1980, cortou as castanheiras e criou gado. O governo do Estado nunca se opôs à mudança de exploração da terra. Benedito vendeu a Cedro para o banqueiro Daniel Dantas. Por um capricho da história, Dantas teve como advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, ex-deputado do PT que no passado defendeu famílias de guerrilheiros, sindicalistas e camponeses assassinados nas terras que hoje são apostas do banqueiro no negócio da mineração.
A Atalaia também é alvo de denúncias em outro foco de conflito no campo, a quase seis horas de viagem de carro e 464 quilômetros de asfalto e trechos de terra a partir de Marabá. Em Anapu, município onde a missionária americana Dorothy Stang foi assassinada, em 2005, a empresa é citada pelo grupo da religiosa como prestadora de serviços para Debs Antonio Rosa, um fazendeiro que diz ser o proprietário do Lote 83, local de pelo menos cinco assassinatos em 2015.
À reportagem, o dono da Atalaia, Renê Rodrigues de Mendonça, negou que seus seguranças tenham atirado contra camponeses do Acampamento Helenira Resende, na região onde atua há cerca de cinco anos. A respeito da atuação em Anapu, Renê disse que sua empresa prestou serviços por apenas dois meses na área. Sobre o assassinato de Wagner Nascimento Silva em 2009, declarou que um inquérito sobre o caso corre em Curionópolis e que já esteve presente em três audiências conduzindo os agentes que, naquela ocasião, prestavam serviços na Fazenda Cedro. “A perícia técnica vai comprovar que nossos seguranças não causaram a morte do Wagner”, disse.
Após a publicação desta matéria, a Agropecuária Santa Bárbara, do grupo de Daniel Dantas, declarou que é “a única e legítima proprietária da Fazenda Cedro” e que, “apesar dos prejuízos e do clima de temor instalado em suas fazendas por conta de manifestações explícitas de força e intimidação a seus funcionários, continua a buscar solução pacífica e de respeito às regras de convivência democrática, mantendo interlocução com autoridades e representantes locais para resolução da questão fundiária da região”.
Tempo apaga sepulturas de mortos no massacre de Eldorado do Carajás
Restam poucas cruzes no local do cemitério de Curionópolis onde foram enterrados 14 dos 19 sem-terra mortos pela Polícia Militar do Pará, em Eldorado do Carajás, em abril de 1996. Dida Sampaio / Estadão
Restam poucas cruzes no local do cemitério de Curionópolis onde foram enterrados 14 dos 19 sem-terra mortos pela Polícia Militar do Pará, em Eldorado do Carajás, em abril de 1996. Dida Sampaio / Estadão
A demarcação de terra é uma ilusão no Cemitério de Curionópolis, onde foram sepultados 14 dos 19 sem-terra executados pela polícia paraense, na vizinha Eldorado do Carajás, em abril de 1996.  O tempo consumiu as cruzes de madeira.  O espaço vazio começa a receber corpos de tragédias recentes que chegam para serem enterrados.  E são muitos os mortos da criminalidade comum nos municípios da região.  Não há placa para indicar o local onde os trabalhadores foram enterrados.
Aos poucos, a memória do espaço se perde. O coveiro que trabalhou no enterro morreu. O vigia do cemitério, Wilson Lucena Barbosa, leva a equipe de reportagem ao local exato onde os sem-terra foram enterrados, demarcado por dois ipês-brancos e um cajueiro. Barbosa diz que duas cruzes de madeira sem identificação num canto, próximas ao cajueiro, são das vítimas do massacre, pois estão envolvidas com flores feitas de lata. No local onde estão os corpos dos militantes, uma cova aberta recentemente e ainda com velas é de uma mulher que morreu no fim do ano passado.
Wilson Lucena Barbosa, que trabalha no cemitério de Curionópolis, no Pará, aponta para o local onde foram enterrados sem-terra mortos do massacre ocorrido na Curva do S, em Eldorado do Carajás, em 1996. Dida Sampaio / Estadão
Wilson Lucena Barbosa, que trabalha no cemitério de Curionópolis, no Pará, aponta para o local onde foram enterrados sem-terra mortos do massacre ocorrido na Curva do S, em Eldorado do Carajás, em 1996. Dida Sampaio / Estadão
Na Curva do S, trecho da BR-155, a antiga PA-150, em Eldorado, ativistas fincaram 19 troncos de castanheiras para lembrar as vítimas, dez delas executadas à queima-roupa, com tiro na testa e nos olhos. Nesse local, tropas do coronel Mário Pantoja e do major José Maria Pereira de Oliveira, da Polícia Militar, sob ordens do governador Almir Gabriel (PSDB), encurralaram e assassinaram Abílio Alves Rabelo, Altamiro Ricardo da Silva, Amâncio Rodrigues dos Santos, Antonio Alves da Cruz, Antonio Costa Dias, Antônio (conhecido por Irmão), Graciano Olímpio de Souza, João Carneiro da Silva, João Rodrigues de Araújo, Joaquim Pereira Veras, José Alves da Silva, José Ribamar Alves de Souza, Leonardo Batista de Almeida, Lourival da Costa Santana, Manoel Gomes de Souza, Oziel Alves Pereira, Raimundo Lopes Pereira, Robson Vitor Sobrinho e Valdemir Ferreira da Silva.
O Incra instalou 690 famílias de sobreviventes do massacre a 40 quilômetros. A situação do Assentamento 17 de Abril é caso raro. Das famílias que ganharam lote, 73% continuam na terra. A memória da tragédia pode estar por trás da permanência da maioria. “Aí foi mais por causa da simbologia do que ocorreu. O pessoal ficou mais agarrado”, relata, com orgulho, Raimundo dos Santos Gouveia, de 61 anos. Ele é um dos líderes dos sem-terra que estavam na Curva do S em 1996.
Na varanda da pequena casa de alvenaria na vila do assentamento, Gouveia relata que o grupo tinha saído de um acampamento na Fazenda Formoso, no Complexo Macaxeira, antiga área de castanha, em Curionópolis, para pedir pressa na demarcação. Além de Gouveia, integravam o comando da manifestação Márcio Lima, Oziel Alves Pereira, Onalício Araújo Barros, o Fusquinha, Joaquim Negão, e Valentim Sena, o Doutor. A maioria das 3 mil pessoas do acampamento era de garimpeiros, suas mulheres e filhos que vagavam pelo Pará desde o declínio da mineração em Serra Pelada, nos anos 1980. “Só deu para chegar até a Curva do S”, lembra Gouveia.
O avanço das tropas surpreendeu o grupo. “Nunca pensei que ia ocorrer o ataque. É tanto que eu estava com a minha mulher, Maria, e minha filha, Roseni. Quem ia saber o que aconteceria?” Pelo relato de Gouveia, Pantoja chegou a dialogar. “Ele disse: ‘Estamos tentando conversar com o governo para resolver o problema de vocês. Só não queremos que fechem a estrada’. Foi uma conversa bonita, maneira. Mas ele só esperava vir mais força”, conta. Os sem-terra deixaram a pista na hora do café da tarde. Na volta, foram cercados. No início do tiroteio, Gouveia, Maria e Roseni entraram no mato. “Toda noite a gente sonha com o que passou.”
Em 26 de março de 1998, Fusquinha e Doutor foram fuzilados por policiais numa operação montada pelo grileiro Carlos Augusto da Costa. Os sindicalistas lideravam uma ocupação da Fazenda Goiás 2, terra de antigo assentamento, quando foram presos sem autorização judicial. Doutor recebeu dois tiros no tórax. Ao socorrer o amigo, Fusquinha foi alvejado nas costas. Os nove policiais desse episódio tinham estado na Curva do S dois anos antes.
Na entrevista em fevereiro passado, quando Dilma Rousseff ainda estava no exercício da Presidência, Gouveia fez um desabafo. “Infelizmente, neste momento, nós não podemos ficar neutros, pois tem muitos oportunistas. Então fizemos uma marcha no início deste ano para defender a Dilma, porque ficar de braços cruzados era pior. A gente tem que dar o grito, mesmo zangado. Nosso grito agora é zangado”, diz. “O governo que a gente apoiou tanto parece que está amarrado. A expansão de assentamentos não aconteceu. Eu me pergunto por quê.” Ele conta que o movimento elegeu o prefeito de Eldorado do Carajás, Genival Diniz, que logo se afastou da comunidade. Ele também considerou ruim o governo estadual da petista Ana Júlia Carepa, de 2006 e 2010, e reclama da política do campo dos governos Lula e Dilma. “A gente deveria ter ficado neutro. Em Eldorado, elegemos um prefeito do PT, que não foi bom. Foi uma experiência ruim.”
Após a conversa, Gouveia mostra uma fotografia de Dorothy Stang, missionária americana assassinada em Anapu, em 2005. Depois do massacre da Curva do S, ela apareceu em Eldorado para dar apoio espiritual às famílias.
Túmulo da missionária gaúcha Adelaide Molinari, em Curionópolis, no Pará.  Ela foi morta por pistoleiros contratados por um fazendeiro na cidade vizinha de Eldorado do Carajás em 1985. Dida Sampaio / Estadão
Túmulo da missionária gaúcha Adelaide Molinari, em Curionópolis, no Pará. Ela foi morta por pistoleiros contratados por um fazendeiro na cidade vizinha de Eldorado do Carajás em 1985. Dida Sampaio / Estadão
Lentidão do poder público alimenta conflitos
Cerca de 690 famílias de sobreviventes foram instaladas pelo Incra a 40 km de Eldorado; 73% delas continuam na terra
Era a noite do último réveillon quando o pequeno agricultor Lucas da Silva Costa, de 23 anos, foi fuzilado à queima-roupa com tiros de armas de uso restrito de forças legais.  Sua morte ocorreu durante um conflito na Fazenda Fluminense, no norte de Rondônia.  O fazendeiro e ex-deputado estadual Jair Miotto, pai do prefeito de Monte Negro, Júnior Miotto, alega que está na área desde 1985.  O grupo de famílias ao qual Lucas pertencia reclama que a terra é da União, prometida há 20 anos para assentamento.
É o drama de uma família que não consegue deixar a condição de sem-terra desde os estertores da ditadura. Os pais de Lucas, os paranaenses Marta e João Antônio Costa, migraram para Rondônia no começo dos anos 1980, quando os generais propagavam que a Amazônia era uma terra sem homens para homens sem terras. Nascido na floresta, Lucas morava num acampamento e trabalhava como ajudante de pedreiro e construtor de cocheiras de bois. No combate em que morreu, duas casas usadas por funcionários foram incendiadas. A explosão de botijões de gás destruiu tetos e paredes. No dia seguinte, a polícia encontrou uma poça de sangue dentro de uma casa que não foi queimada. O corpo de Lucas estava a alguns metros, na beira de um lago.
Lucas fazia parte de uma geração de pequenos agricultores e índios, com faixa etária de 20 a 40 anos, que conhecia, por contato com o mundo de violência, táticas de matadores contratados por grileiros. É uma geração que se acostumou a lidar com ações contrárias do governo, do Judiciário e, por vezes, do Ministério Público, numa realidade baseada no avanço de obras sem compensações sociais, sentenças a favor de invasores de terras da União e processos para adiar a instalação de assentamentos e reservas indígenas.
A investigação do homicídio é um emaranhado de acusações. A Liga dos Camponeses Pobres (LCP) afirma que Lucas foi morto por pistoleiros da fazenda. Empregados da Fluminense dizem que o agricultor recebeu tiros de um dos invasores. A polícia não investiga. A área de 1,2 mil hectares virou praça de guerra. No dia 3 de fevereiro, homens incendiaram depósitos de ração. Depois, no dia 8, desconhecidos cortaram árvores e cercas. No dia 13, funcionários da fazenda que circulavam em uma caminhonete foram alvo de tiros. Abandonaram o carro e fugiram pela mata. O veículo foi incendiado. “Essas pessoas não são trabalhadoras rurais. Loteiam as terras e revendem. São perigosas”, acusa Marilene Mioto, uma das donas da fazenda e irmã de Jair. “Nosso companheiro Lucas foi brutalmente assassinado pelos pistoleiros”, diz, por sua vez, o líder da LCP em Rondônia, José Fonseca de Souza, o Pelé.
A guerra de versões sobre o título da fazenda e o homicídio é alimentada pelo poder público. Ganha força com a expansão de milícias e o esvaziamento de órgãos do Executivo. O sucateamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Fundação Nacional do Índio (Funai), faces mais expostas do Estado no interior, expõe a política de desenvolvimento.
A colonização da Amazônia, porém, se daria nos moldes da que ocorrera séculos antes no litoral, com a supremacia dos mais fortes economicamente e do derramamento de sangue. O resultado viria no pós-ditadura. Entre 1986 e 1996, as mortes no campo chegaram a 660 casos, ultrapassando as 625 vítimas registradas em 21 anos de regime militar. No vazio do Estado, ex-agentes da repressão eram contratados por fazendeiros para chefiar pistoleiros.
A mancha verde do Cerrado e da selva de propriedade da União diminui, enquanto um Brasil regido pela lei dos fuzis e movido por violações de direitos se expande. São 100 milhões de hectares do território nacional sob controle de grileiros, área de quatro Estados de São Paulo. Um mercado da violência se movimenta e impõe seu modelo econômico. Por pouco dinheiro se derruba um ipê – o novo mogno da Amazônia – ou se fuzila um homem ou uma mulher. Com os setores industrial e comercial em crise, a agricultura é pressionada para crescer ao largo da garantia de conquistas socioambientais. É um mito que o poder público está ausente. As digitais de governo, Judiciário e Ministério Público na promoção da violência são vistas a olho nu, em processos de regularização que se arrastam por décadas a fio e sentenças e ações que favorecem, invariavelmente, os grileiros, mais preparados para constituir defesas jurídicas.
Por: André Borges e Leonencio Nossa
Fonte: O Estado de São Paulo

sábado, 18 de junho de 2016

Fascistas atacam às claras


Por Pedro César Batista

Os fascistas saem das catacumbas

Nem se passaram 26 anos desde a queda da URSS, quando a experiência da construção de um mundo socialista livre se tornou realidade. Depois desse tempo verificamos o retorno de concepções que pareciam sepultadas pela história.

Foram 73 anos de conquistas relacionadas aos direitos humanos, econômicos e sociais que alteraram a face da humanidade, principalmente depois de derrotar o nazi fascismo, o que obrigou a burguesia a “barbear” a exploração capitalista, principalmente na velha Europa, tornando-a mais sutil para a obtenção, cada vez mais cruel, da mais-valia.

Um novo modelo de golpe

Depois de a América Latina enfrentar inúmeras ditaduras, apoiadas, organizadas, treinadas e financiadas pelos EUA, as quais deixaram um rastro de sangue e morte, o continente viveu recentemente a experiência de três golpes de Estado: Honduras, Paraguai e agora o Brasil, que tem um processo golpista em curso.

Agora não mais colocam os tanques nas ruas, nem se escondem, usam a mídia para manipular, o judiciário e o legislativo para dar legalidade, mesmo desrespeitando as normas jurídicas e democráticas.  

Essas ações não são isoladas

O papel dos EUA em todo o mundo têm sido assegurar os interesses das transnacionais, o que também ocorre no Brasil. Os capitalistas estão de olho no Pré-Sal, o que fará do país um dos maiores produtores de petróleo do mundo. O interesse principal para o golpe em andamento é geopolítico, querem aprofundar a exploração dos trabalhadores, com a retirada de direitos históricos, que o mordomo do golpe, Temer, tem feito nesse curto tempo de sua interinidade na Presidência da República.

O papel das instituições públicas e da mídia

Para satisfazer o interesse dos grandes capitalistas, o parlamento e o judiciário brasileiro, com a grande imprensa cumprindo um papel massificador, têm atuado fortemente para servir aos seus patrões internacionais. Sérgio Moro e Gilmar Mendes são os principais agentes dessa ação intervencionista, atuando, inclusive, dentro de seu próprio bloco, através da Operação Lava Jato, que visa objetivamente desmontar o estado brasileiro, colocando-o, inteiramente, a serviço das transnacionais, seus verdadeiros chefes.

Atuam com um discurso que propaga e incentiva o ódio e dissemina a violência contra os mais pobres e a esquerda, tudo replicado pela mídia golpista que dá a entender que a violência de classe, praticada por policias e pistoleiros nas periferias e no campo, é algo normal, pois sempre os causadores são colocados como vítimas e justos, que se defendem da turba dos miseráveis.

O parlamento brasileiro, com raríssimas exceções, transformou-se em um receptor da excrecência de pior espécie da política, com a propagação do que há de mais baixo no sentimento humano, sustentado pela ignorância, charlatanismo, mentiras e demagogia, com assassinos e bandidos de todas as espécies se passando por “representantes do povo”.

Pode-se dizer que se colocar em um mesmo palco alguns juízes, outros parlamentares e os golpistas teremos instalado um autêntico circo de horrores.

O discurso anticomunista

Toda a campanha da direita fascista, entreguista e dos oportunistas, serviçais do império, tem a finalidade de destruir as conquistas que a humanidade alcançou ao longo da história, obtidas com a luta da classe produtora, após séculos de lutas dos oprimidos.

Desde a Comuna de Paris, passando pela Revolução Russa, os guerrilheiros da Sierra Maestra, que transformaram radicalmente Cuba, e tantos movimentos libertadores e humanitários em todos continentes, a direita fascista tem feito com que o discurso ideológico anticomunista, sustentado em mentiras, manipulações históricas e uma feroz campanha midiática, mesmo dentro da academia, retornem com força e como se fosse algo moderno.

A Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em 1964, organizada pela igreja católica e dirigida pelos setores mais reacionários, abriu as portas para uma ditadura criminosa, que prendeu, perseguiu, torturou e matou ao longo de 21 anos. Ainda assim, até hoje, os criminosos que praticaram esses atos permanecem impunes, alguns se tornaram parlamentares, dando-lhes carta branca para seguirem mentindo e manipulando.

E, mais uma vez, voltam com o mesmo velho discurso, acusando as suas vitimas como terroristas, violentos e bandidos, alterando completamente os fatos históricos.
Os direitistas e fascistas roubam, mentem, saqueiam, matam e se dizem inocentes.  E, diante da impunidade que permanecem, apoiados por uma mídia conivente que replica seus discursos mentirosos, tem formado seguidores, inclusive na juventude, o que traz grandes riscos para a liberdade e a democracia, mesmo dentro dos parâmetros da democracia burguesa.

O assassinato de indígenas


O mais recente ataque dos latifundiários contra os índios Guarani Kaiwá, no Mato Grosso do Sul, e que vem se repetindo secularmente com todos os povos indígenas, mostra que a finalidade das oligarquias urbanas e rurais tem sido assegurar suas propriedades, acumular mais riquezas, usando a estrutura do Estado a seu serviço, com suas mentiras propagadas pela mídia serviçal. 

O mesmo que ocorre com o massacre cotidiano praticado pela Polícia Militar nas periferias contra jovens. 

Matam e acusam os mortos como se eles fossem os culpados por suas mortes. 

Mentem descaradamente em jornais das emissoras fascistas, que sustentam essa prática, que acaba se tornando aceitável por uma população manipulada, sem informações históricas, nem capacidade crítica, e essas mentiras, essas práticas acabam parecendo normais, quando deveriam ser repudiadas e os responsáveis punidos, com todo o rigor das leis nacionais e internacionais.   

A retirada de direitos

Quando o governo Dilma Rousseff, logo no início de seu segundo mandato, colocou em prática uma política para retirada de direitos dos trabalhadores, estava abrindo a porteira para o golpe que vinha sendo gestado dentro do Palácio do Planalto. O vice-presidente, Michel Temer, ainda no primeiro mandato, já mantinha estreitas ligações com a embaixada dos EUA, conforme comprovado depois, como um informante para a preparação do ataque que terminou acontecendo.

A posição da Câmara dos Deputados e do Senado ao acatarem o processo do afastamento de Dilma Rousseff levou interinamente a Presidência o serviçal do golpe, que organizou um ministério com figuras com um papel claro: desmontar as políticas assistências que permitiram elevar a qualidade de vida de milhões de brasileiros, mas não apenas isso. Temer, o serviçal do golpe, tem o papel em desmontar a legislação trabalhista, assegurando que o lucro do patronato se torne cada vez maior, garanta a preservação do elevado exército de reserva, desmonte do estado brasileiro, quebrando as estatais, papel que vem sendo executado com competência por Sérgio Moro - Rede Globo e garanta a privatização das riquezas nacionais.

A retirada de direitos dos trabalhadores e dos mais necessitados, chegando ao ponto do ministro Meireles propor o congelamento por 20 anos dos investimentos em políticas públicas, tem somente a finalidade de assegurar a transferência dos recursos públicos para as transnacionais, rentistas e os mais ricos, que, em simbiose, atuam para controlar cada vez mais as riquezas do mundo.

A invasão da UnB


O recente ataque de um grupo de fascistas aos estudantes da Universidade de Brasília apenas mostra o que vem pela frente. A ousadia e descaramento dos fascistas voltam ao período pré-guerra, quando os galinhas verdes, comandados por Plínio Salgado, saiam às ruas defendendo Hitler e o Eixo.

Durante a ditadura foi criado o CCC – Comando de Caça aos Comunistas, formado por militares e civis que, financiados por grandes empresários, passaram a praticar atos terroristas e atacar os movimentos estudantis, sindicais e populares. Atualmente inúmeros jornalistas em programas na televisão propagam esse surrado discurso anticomunista, denegrindo as ações em defesa de direitos que os trabalhadores desenvolvem para conquistar e preservar direitos. Também não faltam parlamentares, ligados ao latifúndio, fundamentalistas evangélicos, empresas armamentistas e programas policiais que replicam e defendem essas agressões em seus discursos. Bolsonaro, o torturador e criminoso, é apenas um deles, o mais exposto, porém são muitos os que se orientam com o discurso que a CIA/EUA usou no período pós-guerra e que volta atualmente com força.

A ação na UnB mostra que os fascistas querem mais retrocessos, querem prender, torturar e matar. Eles nem escondem mais o rosto como faziam durante a ditadura, agora mostram a cara, falam sem medo e agridem os mais variados setores da sociedade, repetindo essa prática como sempre fizeram ao longo da história.

O sinal de alerta da história está acesso. Não se pode tratar com complacência os atos praticados na UnB, pois são ações devidamente tipificadas como criminosas no Código Penal Brasileiro. Seus chefes, fascistas da ditadura de 64, permanecem impunes, fato que tem grande importância para que os fascistas de hoje saiam às ruas para agredir, perseguir e intimidar todos que pensam diferentes. A resposta aos fascistas deve ser o repúdio, a exigência da responsabilização criminal, com a devida ação legal para que respondam por seus crimes, tanto os chefes como os seguidores.


O quadro atual, seja nacional, seja no mundo, mostra a necessidade histórica da unidade de todas as forças democráticas, populares e de esquerda para enfrentar os golpistas, os serviçais das transnacionais, os fascistas, o latifúndio e os imperialistas, assim como defender a democracia, as liberdades civis, os direitos dos trabalhadores e a legalidade. Unidade e luta contra o retrocesso e o perigo que o futuro corre. 

Editado por iMaque - Soluções em Sustentabilidade