sábado, 5 de agosto de 2017

Herdeiro do nazismo e da ditadura precisa ser repudiado e combatido

















Por Pedro César Batista

O mundo vive profundas contradições, que se apresentam em todos os campos. Setores mais intelectualizados afirmam que vivemos a era da pós-modernidade, cabendo a reinvenção de práticas e conceitos aos indivíduos e à sociedade. Outros, ainda não saíram da escuridão do período inquisitorial, defendendo privilégios e supremacia de uns sobre os outros, chegando a afirmar que a violência deve ser usada sobre os mais fracos.

Não me enquadro em nenhum dois lados, penso que a pós-modernidade vivencia sua fase de maior consistência, com o aprofundamento das contradições entre as classes, entretanto, o objetivo aqui é destacar certos conceitos que são propagados, livremente, e que disseminam o ódio, quando é necessário resgatar práticas e conceitos humanistas, além de um nível de organização dos setores mais marginalizados capazes de alterar a ordem social e econômica, construindo uma sociedade fundada na justiça e igualdade, diante do alto nível de concentração e desmonte dos Estados Nacionais, que se tornam títeres do imperialismo, dirigido pelos mais ricos do mundo.

O que é inegável é que o mundo vive um elevado avanço técnico-científico, o que tem aprofundado as contradições socioeconômicas, tornando-as mais evidentes em todos os campos, seja em relação ao acesso aos bens e serviços necessários, seja nas relações interpessoais ou entre os diversos setores da sociedade.

Um nazista tupiniquin

Pesquei alguns pensamentos de Jair Bolsonaro, militar e parlamentar que tem angariado seguidores no Brasil e deseja ser candidato à Presidência da República. Suas opiniões se sustentam no preconceito, na misoginia e na violência contra pessoas e setores mais frágeis da sociedade, justamente em um tempo em que o mundo necessita de justiça e paz, mesmo sabendo que, enquanto houver miséria e ignorância, pensamentos como os que listarei a seguir terão espaço para se disseminarem e incautos para os seguirem. Seus pensamentos relembram a origem de um cabo alemão, que levou o mundo à Segunda Guerra mundial, pois não se deu a devida atenção ao que ele defendia e representava. Uma perigosa semelhança.

Durante o Estado Novo, e a partir de 1964, o Brasil viveu um período de muita violência e terrorismo praticados por agentes públicos em nome do Estado Brasileiro. Milhares de pessoas foram presas e torturadas, sem nem mesmo terem acusação formal, com detenções arbitrárias e indiscriminadas, apenas por pensarem diferente dos governantes e defenderem que a riqueza produzida fosse democratizada e a democracia exercida pelo Estado. Entretanto, essa triste figura tem dito publicamente que "o erro da ditadura foi torturar e não matar” (Jovem Pan, 8/7/2016). Antes, em 1999, ele afirmou, no programa Câmera Aberta, da TV Câmara, que era "favorável à tortura" e chamou a democracia de "porcaria". Questionado em uma entrevista pela Revista Exame, em 5/10/2015, sobre um levantamento que mostrou que a polícia brasileira é a que mais mata no mundo, Bolsonaro não vacilou e disse: "Eu acho que essa Polícia Militar do Brasil tinha que matar é mais”.

Defender a tortura e o assassinato, praticado pelo Estado contra os opositores do governo de plantão, seja dentro das prisões ou pelas forças policiais, vai totalmente contra o chamado Estado Democrático de Direito, mesmo em uma sociedade com tantas contradições econômicas, que consegue ter uma convivência aparentemente harmônica, apesar do massacre praticado pelas forças policiais contra os mais pobres e jovens negros moradores da periferia. Ainda assim, busca-se avançar na efetivação de uma sociedade democrática e fundada nos direitos individuais e das garantias plenas dos direitos humanos, previstos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e pela Constituição brasileira. As declarações desse parlamentar não cabem no mundo atual, menos ainda na construção de uma sociedade mais justa. Estes conceitos representam enormes perigos à convivência humana e à uma sociedade democrática, representando uma grande ameaça aos valores universais, construídos pela humanidade, como a democracia, a vida e a dignidade humana - que nada representa para essa pessoa.

Um misógino propagando a violência

Em relação às mulheres, mesmo ele possuindo mãe – não veio dos laboratórios de Aldous Huxley em seu Admirável mundo novo-, esposa e uma filha, afirmou taxativamente: "Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens, aí no quinto eu dei uma fraquejada e veio uma mulher” (Revista Exame – 6/4/2017). Em 2014, Bolsonaro afirmou, na Câmara e reafirmou a um jornal, que a deputada Maria do Rosário (PT-RS) não merecia ser estuprada porque era "muito feia" e porque ela "não faz" seu "tipo".

Mostra seu desapreço, ofendendo a dignidade das mulheres de forma criminosa, assim incentivando o estupro. Para a procuradora Federal Ela Wiecko, “ao dizer que não estupraria a deputada porque ela não ‘merece’, o denunciado instigou, com suas palavras, que um homem pode estuprar uma mulher que escolha e que ele entenda ser merecedora do estupro” (G1, 21/6/2016). Um misógino que se utiliza do parlamento para propagar sua opinião incentivando a violência contra às mulheres, o feminicídio e a discriminação. Correu no STF um processo contra o militar por incentivo ao estupro.

















Propagador da homofobia
Ao conceder uma entrevista para a revista Playboy, em junho de 2011, Bolsonaro afirmou que "seria incapaz de amar um filho homossexual" e que preferia que um filho seu morresse num acidente a presenciá-lo com um bigodudo por aí. Desta forma, segue propagando seu ódio e incentivando a violência contra os que não pensam como ele e as minorias, aproveitando-se de veículos de comunicação para propagar seus valores nazistas, dando a entender que são legais, normais e aceitáveis dentro de uma sociedade democrática.

Xenófobo e contra os mais pobres

Novamente defendeu a violência contra os setores mais excluídos da sociedade. Na revista Exame, em 22/9/2015, tratou sobre refugiados e os trabalhadores rurais sem-terra. Disse: "Não sei qual é a adesão dos comandantes, mas, caso venham reduzir o efetivo [das Forças Armadas] é menos gente nas ruas para fazer frente aos marginais do MST, dos haitianos, senegaleses, bolivianos e tudo que é escória do mundo que, agora, está chegando os sírios também. A escória do mundo está chegando ao Brasil como se nós não tivéssemos problema demais para resolver."

Já no Clube Hebraica, na região sul da capital carioca, em abril deste ano, seu discurso destilou ódio e desprezo pelos mais pobres e injustiçados na história do Brasil. Ressaltou que iria acabar com todas as terras indígenas e comunidades quilombolas. “Se depender de mim, todo cidadão vai ter uma arma de fogo dentro de casa. Não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou pra quilombola”. Em uma entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, em 9/1/2017, ressaltou sobre indígenas que vão ao Congresso, “devia ir comer um capim ali fora para manter as suas origens”.

Com opiniões que degradam as pessoas, negando os crimes seculares praticados contra os povos indígenas e o povo negro, consegue ser notícia na grande imprensa, o que acaba fazendo com que forme um séquito de pessoas, que mesmo fazendo parte dos setores ameaçados, violentados, agredidos e excluídos da sociedade acabam o aplaudindo e acreditando que as injustiças para serem solucionadas é preciso ser mais violenta contra os mais pobres e sofridos no Brasil e no mundo.

Anticomunismo e retrocessos

O filho de Bolsonaro, Eduardo, também deputado federal, pelo Rio de Janeiro, ironicamente filiado a um partido pretensamente cristão (PSC), apresentou projeto de lei a Câmara dos Deputados ressuscitando o período de caça às bruxas, quando pessoas em todo os países ocidentais eram presas e perseguidas, com a proibição da existência legal dos partidos comunistas. O projeto do filho de Bolsonaro proíbe o uso do símbolo da foice e martelo, justamente o que nazistas e fascistas fizeram em muitos países durante muito tempo. Os comunistas foram os que mais sofreram (sofrem) perseguição no mundo por suas posições contrárias ao modo de produção capitalista.

Formado na Academia Militar das Agulhas Negras

Nascido em 1955, no Rio de Janeiro, jovem foi para a Escola de Cadetes do Exército e, em seguida, para a Academia Militar das Agulhas Negras, no Rio de Janeiro. Em 1977, formou-se na carreira militar, ingressou na Brigada de Infantaria Paraquedista.

O período que esteve na academia militar foi justamente no ciclo mais duro da ditadura, quando o Brasil enfrentava o AI-5 e durante o governo criminoso de Médici, que comandou o terrorismo de estado contra o povo. Nesse tempo aprendeu os valores e conceitos que eram propagados, que se fundava na doutrina de segurança nacional. Tem como herói, o coronel Brilhante Ustra, que comandou a sede do DOI-CODI, do II Exército, entre 1970 e 74, local onde centenas de pessoas foram torturadas e assassinadas, covardemente pelos algozes da ditadura.

Mesmo fazendo uma pesquisa mais aprofundada nada se encontra sobre a atuação de Bolsonaro entre o período que entrou na Escola de Cadetes do Exército até sair da Academia, em 1977. Somente em 1986, então capitão, após publicar um artigo na revista Veja, em que defende reajuste salarial para os militares, torna-se conhecido nacionalmente. Em 25/11/1987, a mesma revista publicou outra reportagem intitulada “Pôr bombas nos quartéis, um plano na ESAO (Escola Superior de Aperfeiçoamento de Oficiais)”, detalhando plano de Bolsonaro e outro militar, Fábio Passos, para explodir bombas em unidades militares do Rio de Janeiro. Para Bolsonaro era “só a explosão de algumas espoletas”. Foi julgado por este crime em 16/6/1988, tendo o STM (Superior Tribunal Militar) e absolvido, em votação de 8 votos a 4, com base na dúvida em favor do réu. O que os militares nunca aplicaram quando prendiam e torturavam até a morte nos porões das Forças Armadas e sedes de tortura pelo país.

Neste período, o Brasil vivia a redemocratização, - mesmo dentro das limitações impostas pelos militares, como os torturadores que permaneceram impunes, com a elaboração de uma nova Constituição pelos deputados federais e senadores eleitos em 1986. Um período que, conforme se comprova com os documentos que hoje estão disponíveis, o SNI (Serviço Nacional de Informação) seguia ativo, monitorando e controlando militantes da esquerda. E justamente neste período aparece o capitão Bolsonaro. Elege-se vereador no Rio de Janeiro, em 1988, e, em 1990, deputado federal. Começando sua carreira ascendente na política nacional, passando a liderar as posições mais à direita no espectro ideológico.

Em reportagem publicada em 16/5/2017, pela Folha de S. Paulo, o coronel Carlos Alberto Pellegrino, afirmou que "[Bolsonaro] tinha permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos, no que foi sempre repelido, tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos”. O cel. Pellegrino foi o superior de Bolsonaro e estas informações contam da Ficha de Informações, produzida em 1983, pela Diretoria de Cadastro e Avaliação do Ministério do Exército.

O jornalista estadunidense Glenn Greenwald, em artigo publicado no jornalThe Intercept, em 11/12/2014, referiu-se a Bolsonaro como "o mais misógino e detestável funcionário público eleito no mundo democrático". Enquanto matéria no site news.com.au, parte do conglomerado da News Corporation na Austrália, divulgada em 2/5/2016, Bolsonaro é classificado como o "mais repulsivo político do mundo".





















Um cadáver insepulcro

A história, segundo Marx, repete-se como farsa ou tragédia. Infelizmente, o povo alemão não deu a devida atenção a um cabo, que surgiu em um cenário de pobreza e ausência de esperança, após a derrota desse país na Primeira Guerra Mundial. Foi quando Adolf Hitler conquistou seguidores, com discurso radical e violento, fazendo vastos setores acreditar na superioridade de uma raça sobre a outra. Propagou o desprezo aos pobres, homossexuais, ciganos, judeus e comunistas e fortaleceu a ideologia da superioridade de uma raça. Ao assumir o comando da Alemanha, em 1933, iniciou um programa de limpeza étnica e de expansão territorial, que provocou mais de 40 milhões de mortos. Apenas na ex-URSS, que conseguiu derrotar a poderosa máquina de guerra nazista, mais de 20 milhões morreram.

As manifestações ocorridas no Brasil em junho de 2013 tiveram como uma de suas principais palavras de ordem o gigante acordou, a mesma que foi usada pelos hitleristas para chegarem ao poder. Em nosso país, a massa que saiu às ruas naquele ano, retornou para apoiar o afastamento da presidente Dilma Rousseff, tendo sido largamente usado os mesmos discursos contra os pobres, as minorias e os comunistas. Atualmente, o governo brasileiro está dirigido por uma quadrilha de corruptos e inimigos do povo, o que tem feito aumentar a descrença com os poderes da república, aumentando a desesperança e a negação com a política.

Esta situação se torna fértil para que um herdeiro da ditadura de 1964, formado dentro da Academia das Agulhas Negras, demagogo, agressivo, com um violento discurso contra os mais pobres, as minorias e a esquerda, especialmente contra os comunistas, tenha conseguido se tornar uma expressão da política nacional. Bolsonaro simboliza o que não cabe mais em uma sociedade moderna ou pós-moderna, quando os indivíduos buscam ter a garantia de sua dignidade humana, quando as classes trabalhadoras se reorganizam para (re)conquistar seus direitos que estão sendo retirados pelos entreguistas e serviçais dos imperialistas e do grande capital e a busca de uma sociedade justa, democrática e igualitária se torna cada vez mais necessária.

Por fim, para evitar que mais retrocessos possam ocorrer, defender a democracia, mesmo liberal, criando as condições para seguir construindo um mundo de paz e justiça, torna-se determinante a formulação de um programa mínimo, baseado nos interesses elementares na defesa dos Direitos Humanos e da efetivação de uma democracia popular, com o controle das classes trabalhadoras, denunciando e combatendo com a firmeza necessária esse cadáver insepulcro que segue mentindo e incentivando a dor e morte.

Pedro César Batista
< Jornalista, bacharel em Direito, escritor e educador ambiental. Coordenador Geral do Movimento Cultural de Olho na Justiça. Militante da Refundação Comunista.

Imagens - Pablo Picasso: 1 - Guernica; 2 - Cabeça de cavalo; 3 - Mulher chorando

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