quinta-feira, 8 de junho de 2017

Palmares – Exemplo revolucionário



Pedro César Batista*

A Santidade de Jaguaripe, formada a partir de 1580, por índios e africanos que fugiram da escravidão imposta pelos colonizadores, possuiu forte influência religiosa milenarista. Com sua organização os índios e negros começaram a queimar casas, destruir lavouras de cana-de-açúcar e engenhos e a matar os portugueses que os escravizavam .

Essa primeira comunidade foi denominada de santidade, devido sua origem ter sido de índios que haviam recebido orientações religiosas dos padres jesuítas e terminaram tendo que fugir da escravidão nas fazendas, nos engenhos e também da obrigação que os religiosos impunham de fazerem o catecismo. Segundo Ronaldo Vainfas, em seu livro Deus contra Palmares (1996) , as santidades representaram a forma precursora dos quilombos no Brasil, reunindo escravos indígenas e negros e brancos fugitivos da Coroa portuguesa. Mesmo esta posição não sendo consenso entre os pesquisadores, pesquisas arqueológicas na região da Serra da Barriga mostram evidências de considerável participação indígena na constituição do Quilombo de Palmares .

O início desse movimento de indígenas e negros fugitivos levou Portugal a dar instruções detalhadas, determinadas pelo rei Espanhol Felipe II (que havia assumido a Coroa Portuguesa em 1580) ao governador do Brasil, Francisco Giraldes , em 1588, onde dizia que “mais de três mil índios que tem feitos fortes e fazem muitos insultos e danos nas fazendas de meus vassalos (...) recolhendo a todos os negros de guiné que andam alevantados” . Pode-se dizer que a resistência dos escravos começava a dar resultado, causando prejuízos aos colonizadores.

A luta dos escravos contra a escravidão cresceu rapidamente. Em 1602, o governador de Pernambuco, Diogo Bothelho, organizou a primeira expedição contra cinco das seis aldeias, localizadas entre a Bahia e Pernambuco , na região em que se consolidou o maior de todos os quilombos no Brasil. A partir de 1624, a República de Palmares deu um enorme salto populacional, depois da invasão de Pernambuco pela Holanda, que atacou os portugueses e iniciando uma guerra, o que ajudou muitos escravos africanos para que aproveitassem o momento e se integrassem aos quilombos existentes, especialmente Palmares.

A cultura predominante entre os quilombolas palmarinos era da região central da África, onde está localizada Angola. Eram aprisionados por governos africanos ligados aos portugueses, por mercenários e pelos colonizadores. Há uma corrente de historiadores brasileiros que consideram Palmares como uma tentativa de recuperar a herança cultural da África. Misturaram a isso a religião cristã e os hábitos indígenas .

Palmares foi formado por um aglomerado de quilombos, uns pequenos, outros maiores, possuindo uma estrutura organizacional, com um governo centralizado, uma economia estruturada, força militar e uma sociedade organizada, estabelecendo prósperas comunidades agrícolas, autossustentáveis e autônomas . Considerando que, em 1610, o governador do Brasil, explicou ao rei que na região de Palmares havia mais de 20 mil almas .

Até o meio do século XIX o Brasil possuiu milhares de quilombos, pequenos e grandes. Todos conseguiram se organizar e resistir por algum período, como Palmares que foi desarticulado em 1710. Isso não desestimulou a luta do povo negro, que seguiu se organizando em quilombos pelo território brasileiro. Por exemplo, em 1823 em Trombetas, no Amazonas, o Quilombo do Pará, sob a liderança de Anastásio, escravo mestiço de negro e índio, com mais de 2 mil habitantes, possuia um intenso intercâmbio com a sociedade branca, com transações comerciais, chegando a exportar cacau para a Guiana Holandesa .

Segundo estimativas apresentadas por Mircea Buescu, no livro Exercícios da história econômica do Brasil (1968), há registros do ingresso de 6.352.000 escravos no Brasil entre 1540 e 1860. Considerando ainda os escravos que entraram no mercado clandestino e aqueles que morreram na travessia dos navios durante o tráfico humano, este número aumenta consideravelmente. Darcy Ribeiro, em O Povo Brasileiro (1995) chega a estimar que 5 milhões de africanos morreram na travessia do Atlântico, entre a África e o Brasil .

Com este artigo quero destacar dois pontos na atualidade.

Primeiro, Karl Marx escreveu o Manifesto Comunista, em 1848, e a Comuna de Paris ocorreu em 1871, tendo a organização da República de Palmares sido dois séculos antes, entretanto, Marx não teve conhecimento da experiência existente nos quilombos no Brasil, a qual mostrou uma organização de uma sociedade superior para a época, conseguindo se estruturar política, militar e economicamente, assegurando a vida de milhares de pessoas, não apenas os africanos, mas também índios e brancos, estes últimos em número menor, mas integrados às normas estabelecidas. Infelizmente a perseguição aos escravos nunca cessou, chegando a ser publicado, em 1741, um decreto pela Coroa portuguesa que definia quilombo qualquer agrupamento composto com cinco ou mais escravos fugitivos , o qual devia ser combatido e seus integrantes presos. Destaca-se, que, o papel que Ganga Zumba e Zumbi tiveram ao liderar Palmares foi muito além da questão racial, mostrando ao conjunto das classes oprimidas a importância da organização, unidade e resistência contra o opressor.

Em segundo lugar destaco os dados do Mapa da Violência 2016: homicídios por armas de fogo no Brasil , que aponta apenas no Estado de Alagoas, onde se localizou o Quilombo de Palmares, que, apenas em 2014, foram assassinados 60 brancos e 1.702 negros. No geral, o Mapa da Violência apresenta o índice de 7 negros para cada grupo de 10 pessoas assassinadas. Uma violência aind direcionada pelas classes dominantes. Isso sem citar os dados da população carcerária majoritariamente negra, dos salários menores para homens e mulheres negra, o que mostra que a população negra segue sendo a principal vítima do sistema e do Estado. O mesmo que ocorre com os povos indígenas, que mesmo não sendo assassinados, estão completamente abandonados pelo Estado. As formas de violência contra os pobres se dá de muitas formas, o que mostra a necessidade das classes exploradas e oprimidas se unirem para combaterem o mesmo inimigo.

Os ensinamentos e a experiência dos quilombos, especialmente os deixados por Palmares, com a liderança de Zumbi e Dandara, exigem uma análise além da questão racial, mas com um olhar de classe, como um experiência revolucionária e multirracial na história das lutas dos explorados no Brasil e no mundo, que teve como finalidade combater a opressão, a exploração e a escravidão. Palmares se organizou como um estado autônomo, com suas características idiossincráticas, em um tempo em que os colonizadores traficavam pessoas, saqueavam riquezas e impunham a ferro e fogo sua violência de classe.

Infelizmente esta situação pouco mudou, apenas as formas para explorar e oprimir foram alteradas e maquiadas, pois o Estado continua servindo aos mesmos senhores, segue a violência em todas as suas formas contra negros, indígenas e pobres e continua o saque das riquezas nacionais com a prática de uma política (ultra)liberal.

Combater o racismo, defender a compensação e pagamento financeiro pelo trabalho desenvolvido por séculos pelos escravos é uma necessidade histórica, para isso, é necessário a unidade de todas as classes exploradas e oprimidas pelo capital, ousar se unir, organizar-se e seguir lutando por justiça, igualdade e liberdade, pra conquistar um novo tempo, uma nova sociedade.

*Pedro César Batista, poeta, escritor, jornalista e bacharel em direito.

Referências:

METCALF, Alida. Escravos milenaristas? A Santidade de Jaguaripe e a resistência escravista na América. Mocambos de Palmares. FAPERJ – 2010.
THORNTON, Jonh K. Angola e as origens de Palmares. Mocambos de Palmares. FAPERJ – 2010.
Memória da Administração Pública Brasileira. 2009. Disponível em http://linux.an.gov.br/mapa/?p=10807
METCALF, Alida. Escravos milenaristas? A Santidade de Jaguaripe e a resistência escravista na América. Mocambos de Palmares. FAPERJ – 2010. Francisco Giraldes veio para o Brasil e não conseguiu desembarcar, retornando para Portugal.
FILHO, Alves. Memorial de Palmares. 1910. Mocambos de Palmares. FAPERJ – 2010.
KLEIN, Herbert S; III, Ben Vinson. A escravidão africana na América Latina e Caribe. Editora UnB. 2015.
METCALF, Alida. Escravos milenaristas? A Santidade de Jaguaripe e a resistência escravista na América. Mocambos de Palmares. FAPERJ – 2010. Carta de Diogo de Menezes ao rei, 1º de setembro de 1610.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. Companhia das Letras. 1995.
http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2016/Mapa2016_armas_web.pdf

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