sábado, 8 de agosto de 2015

Overdose de Doxa




Por Pedro César Batista

Nem se passou um ano desde a vitória eleitoral de Dilma Roussef para a Presidência da República, mas o tempo decorrido parece ter sido mais longo. Como uma overdose, nas palavras de minha companheira, Wanessa Dias, a grande mídia alucina a população, principalmente os que se informam pela grande imprensa, massificando a ideia de que há santos e bandidos entre a elite econômica e política brasileira.

A começar pela meia dúzia de proprietários dos meios de comunicação, os quais sonegam impostos (apenas a Globo deve aproximadamente 850 milhões de reais), não respeitam a legislação e de maneira contumaz mentem, estes são os primeiros a se autointitularem os donos da verdade, democratas e justos. São cínicos, pois mesmo usufruindo da concessão de um serviço público, permanecem incólumes, apesar de cotidianamente manipularem fatos e direcionarem, conforme seus interesses econômicos e políticos, as informações. Essa situação permanece, apesar de 13 anos de um governo do PT.

O governo petista distribuiu, ao longo de 12 anos, através do Bolsa Família, mais de 24 bilhões de reais, atendendo 14 milhões de famílias, aproximadamente 50 milhões de pessoas.

Foi divulgado nesta semana, informações da Receita Federal, mostrando que apenas 0,3% dos contribuintes - 71.440 pessoas físicas, com rendimento mensal acima de 160 salários mínimos, controlam 21,7% da riqueza nacional (totalizando um patrimônio de R$1,2 trilhão).
Na década passada o mundo viveu uma profunda crise econômica, tendo o Brasil, nas palavras do ex-presidente Lula, vivido apenas uma “marolinha”. Sem dúvida, o papel do Bolsa Família, assegurando o consumo teve papel fundamental para que a crise vivida não fosse mais profunda. Entretanto, após a eleição, o governo federal, com o ministro Levy a frente, não alterou a regra histórica, colocando toda a carga, causada pela concentração de riquezas a nível mundial e a especulação financeira, elevando mais ainda os juros para garantir os lucros dos capitalistas, enquanto a classe trabalhadora e as camadas populares enfrentam de forma mais cruel as dificuldades impostas pelo modelo neoliberal, mantido pelo governo petista.

A grande imprensa manipula a população, a qual acredita que a corrupção começou com o PT, sendo que os empresários presos pela Operação Lava jatos, em quase a sua totalidade, iniciaram suas atividades empresariais durante a ditadura, com generais e militares sustentando, por mais de duas décadas, situações ainda desconhecidas e conservadas pelo terror, censura e morte. A Globo foi fruto de uma ilegalidade em sua criação, nascendo como porta voz da ditadura e agora pousa de vestal da ética, apesar de mentir cotidianamente. Sem falar do período colonial, quando saquearam nossas riquezas e massacraram nossos antepassados.

Como resultado dessa overdose de Doxa, aliada a incapacidade do governo federal em dar respostas que atendam os interesses da maioria da população, as velhas raposas, com Eduardo Cunha à frente, estão pautando o debate e impondo seus programas conservadores. Michel Temer, mesmo sendo vice-presidente da República, coloca-se como a alternativa para assegurar a estabilidade política, dando entrevistas como o salvador da pátria. De outro lado, a oposição, comandada pelo que há de pior na história nacional, como Ronaldo Caiado, Agripino Maia e diversos herdeiros de lideranças das oligarquias, como os Cunha, os Maia e o Neves, sem trégua querem apear do governo a presidenta Dilma.

E as forças de esquerda? Após o processo eleitoral, quando os partidos mais à esquerda receberam menos de 2% de votos no primeiro turno da eleição presidencial, também sofrem as consequências da prática do PT, com a grande imprensa colocando todos no mesmo saco, deixando a população confusa sobre os caminhos a seguir. A mídia passa a ideia que toda a esquerda está aliada às velhas práticas da direita, quando, mesmo no PT, ainda há setores com militância e luta.

Apesar das dificuldades existentes as forças de esquerda seguem dispersas, no máximo, parte se reúne para tentar impedir um possível afastamento da presidenta Dilma, o que vem sendo tentado pelas forças reacionárias e fascistas da velha direita.

As manifestações de junho de 2013 mostraram a insatisfação da juventude e da sociedade diante da falta de políticas que mudem efetivamente a estrutura do país. A fogueira acesa em junho sem mantêm acesa, como fogo de monturo, faltando a organização e lideranças capazes de articular e avançar nas conquistas necessárias.

O PT não conseguiu desenvolver um projeto que alteraria a correlação de forças, os partidos mais à esquerda ainda não construíram uma alternativa política e um programa para enfrentar a situação. Não há lideranças capazes de aglutinar essas forças, muitas preocupadas em acumular forças dentro de suas organizações, para se fortalecerem nas disputas internas e outras, ainda reproduzindo a velha prática pequeno burguesa de se acomodar com as migalhas da burguesia, repassadas através de cargos no governo. 

Alguns setores da esquerda e das forças progressistas tentam construir uma frente para defender o governo Dilma, mas a situação exige muito mais. Direitos históricos da classe trabalhadora, conquistados com muita luta, estão sendo retirados pelo parlamento conservador, representante do grande capital e de grupos fundamentalistas da direita, como o seguro-desemprego e a redução da maioridade penal. O governo Dilma, preocupado em se manter, faz cada vez mais concessões ao capital, porém mesmo assim, impedir qualquer golpe é tarefa essencial, pois caso Dilma caia, mais perdas o povo e a classe trabalhadora terá. Precisamos avançar, não retroceder.

O momento exige grandes mobilizações, organização de movimentos capazes de enfrentar a força do capital e as mentiras da mídia. Precisamos pressionar o governo e o parlamento defendendo bandeiras que poderão fazer avançar neste momento histórico, como a taxação dos impostos de grandes fortunas, a quebra do monopólio da mídia, a apuração de todos os envolvidos na Operação Lava Jato, a legalidade do processo institucional. Isso sem deixar de lado a construção de uma frente popular e de esquerda, capaz de elaborar um programa que rompa com a prática eleitoreira, fisiológica e seja capaz de organizar a população e retomando a formação política revolucionária e defesa do socialismo.

A história não tem outra direção a não ser seguir em frente e o capitalismo, em sua fase atual, com sua concentração monopolista a nível mundial, exige ações mais firmes de combate das forças de esquerda, com enfrentamento, capaz de fazer a população entender que este sistema não serve aos reais interesses e necessidades da grande maioria da população mundial. No Brasil não é diferente, por isso o momento nacional exige firmeza no combate aos Cunhas, Caiados e Globos que tentam a ferro, fogo, mentiras e violência manterem-se no poder. Aplicam doses elevadas de doxa na sociedade, a qual se deixa entorpecer perigosamente, colocando em risco o futuro.

Unir a esquerda e as forças populares, construir um programa mínimo, democrático e anticapitalista é vital para o futuro. O tempo avança muito rápido, não dá para perder mais tempo. Assim como toda drogadição, a overdose de desinformação e massificação passará!!


Editado por iMaque - Soluções em Sustentabilidade