segunda-feira, 31 de março de 2014

Para não esquecer 1964



Por Pedro César Batista *

Alegando combater a corrupção e o comunismo e defender a família, os bons costumes e a pátria um grupo de militares e civis, financiados e orientados pelos EUA, assaltaram o Estado brasileiro em 1 de abril de 1964.

Naquele momento, o governo de João Goulart, iniciava uma série de reformas clamadas e apoiadas pelos trabalhadores, estudantes e os setores mais progressistas e organizados do país, como as Ligas Camponesas. Grandes manifestações eram realizadas reivindicando a reforma agrária e o fim das remessas de lucros das multinacionais para o exterior. Em todo o Brasil fervilhava liberdade política, participação e debates sobre os rumos do país. Entretanto, para os golpistas e os EUA, isso era inaceitável. Com a instauração do governo militar imediatamente foram cassados os partidos e os parlamentares. Os sindicatos e o Congresso Nacional sofreram intervenção. Proibiu-se a realização de eleições, iniciando-se uma feroz perseguição aos dirigentes estudantis, sindicais e partidários em todo o território nacional.

Começou o tempo de terror.

A tortura e a morte tornaram-se política de Estado, aplicadas sem vacilar pelos militares no poder. Ainda hoje, 50 anos depois, não se tem os dados precisos, mas estiva-se entre milhares e dezenas de milhares de pessoas presas, torturadas e exiladas. Os mortos até hoje não se tem uma quantidade definida. Nos porões dos quartéis e das Delegacias de Polícia o que falava alto era o pau de arara, o choque elétrico e o alicate arrancando unhas. As mulheres eram estupradas em larga escala, inclusive as grávidas tinham seus filhos arrancados pelo taco do cassetete. Corpos eram esquartejados ou cremados em usinas, como em Campo de Goytacazes.

A resistência

Uma parcela se entrincheirou no parlamento dentro do MDB e outra, mais aguerrrida, pegou em armas para se defender. Estes, quase em sua totalidade, foram mortos. Até hoje centenas de corpos dos que se dispuseram irem às ultimas consequências ainda não foram localizados.

No final da década de 1970 as mulheres organizaram os Comitês Brasileiros pela Anistia, os estudantes reorganizaram a UNE e a UBES, os metalúrgicos fizeram a histórica de greve no ABC.

Os militares acuados

Acuados os militares começaram a explodir bancas de revistas, chegando a tentar, em 1981, jogar bombas durante um show em homenagem ao Dia dos Trabalhadores, no Rio de Janeiro. A bomba explodiu no colo dos assassinos.

Os assassinos e torturadores fardados e os serviçais civis ficaram no poder por 21 anos, quando em 1985, o ex-presidente da Arena e do PDS - partidos da ditadura, José Sarney, sai candidato à vice-presidente da República, na chapa encabeçada por Tancredo Neves, que morreria dias depois e não tomou posse. Inicia-se a chamada Nova República. Os acordos, aqueles feitos em 1979 quando se aprovou a Lei da Anistia e os demais, garantiram que os criminosos permanecessem impunes, o que ainda ocorre.

Passaram-se 50 anos desde aquele 1 de abril de 1964. Muito aprendemos nas ruas para derrotar os militares. Veio as liberdades políticas asseguradas pela Constituição Federal de 1988, mas assim mesmo, os mesmos do tempo de terror permaneceram livres, muitos em cargos públicos, alguns, ainda tem mandatos eletivos, atuando de forma vigorosa para manter o silêncio e impedir que a verdadeira história seja conhecida.

Nesses 25 anos de democracia pudemos comprovar que mesmo existindo os piores defeitos, nada se compara ao tempo do medo e da dor, imposto pelas armas e fardas, onde a censura, as prisões e a morte andavam juntas para impedir uma sociedade livre.

Temos muito a avançar, garantir que os criminosos e seus crimes sejam conhecidos e julgados, que a tortura deixe de existir nas prisões, que os pobres continuem sendo assassinados pelos militares, que os movimentos não sejam vigiados, nem perseguidos e que seja possível sonhar com uma sociedade onde a liberdade e a dignidade estejam asseguradas a todo o nosso povo.

Não podemos aceitar que a mídia continue cumprindo um papel alienante ao propagar mentiras e tentar esconder a história, aproveitando-se do Estado para manter seus privilégios. Assim como não há mais espaço para a insanidade dos fascistas que combatem a vida e a liberdade, não pode haver complacência com aqueles que propagam a escuridão, o preconceito e se sustentam nas injustiças, usando o mesmo velho discurso de 1964, alegando combater a corrupção, o comunismo e defender a família. Somente em uma sociedade livre, democrática e justa poderemos vivenciar a plenitude da existência humana, e os assassinos fardados nunca aceitaram isso. É tempo de florescer a esperança, resgatar os ideais socialistas, pois somos o novo na história, capazes de assegurar a liberdade e a dignidade humana em toda a sua essência e força.

Ditadura nunca mais!

Pela apuração e julgamento da tortura e assassinato praticado pelos golpistas de 1964!

Pelo Socialismo!

Ousar lutar, ousar vencer!

Pedro César Batista é jornalista e poeta. Começou a militar em 1979 e atua até hoje na luta pelo socialismo. Integra a Refundação Comunista e é Coordenador Geral do Movimento de Olho na Justiça e diretor do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal.

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