quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Jornadas de junho - O florescer de muitas fogueiras



Muito se tem debatido sobre as causas que provocaram as jornadas de junho, quando uma fagulha - a luta contra o aumento das passagens em várias capitais, com destaque os primeiros atos em São Paulo -, animou milhões de pessoas, especialmente jovens, a saírem às ruas e colocassem em cheque a velha forma de fazer política.

O livro Jornadas de junho se soma a essa discussão, trazendo uma análise desde as lutas que derrubaram a ditadura de 1964, com as mobilizações pela anistia, a luta pelas eleições diretas para presidente, a campanha da Frente Brasil Popular e o Fora Collor. Mostra o que representou a eleição de Fernando Henrique Cardoso para a Presidência da República, consolidando o projeto neoliberal no país.

Interessante destacar que a maioria dos jovens que se mobilizaram nas jornadas de junho nasceram durante a ascensão neoliberal, passando a entender e compreender o mundo nos anos do governo petista, que, mesmo rompendo a forte onda de redução do Estado, consolidou uma política assistencial – social-liberal, sem atacar de frente as causas da concentração de renda ou o modelo iniciado no final da ditadura.

Ter o privilégio de ter participado como protagonista em todos esses momentos históricos, sem ter sido contaminado pelo jeito fisiológico e pragmático da relação política, dá-me a oportunidade de compreender que as mobilizações de junho foram a somatória da insatisfação acumulada desde o fim da ditadura. Se por um lado, a mídia conservadora e reacionária, a serviço de interesses oligárquicos e contrários à sociedade, tem sido cruel em usar uma concessão pública para manipular almas e sonhos, formando uma coletividade que se pauta em valores exacerbadamente mesquinhos, consumistas e, apesar de ter ido às ruas, completamente despolitizada, por outro, verifica-se que parcela significativa dos setores da esquerda, deixaram de estudar, formar quadros e organizar o povo. Diria que há setores que vieram da esquerda e reproduziram as práticas da direita, ficando de costas para o povo.

Essa conjuntura dialética levou a uma explosão, que se dispersou da mesma forma que nasceu. Como disse a filosofa Marilena Chauí, “se as mobilizações não mudaram o Brasil, pelo menos serviu para acordar o PT”, mas é preciso muito mais para romper o pragmatismo que se apoderou da prática política institucional. A direita historicamente se sustentou na desorganização da sociedade, conservando-a massa, disforme e alienada, alimentada com “pão e circo”, entretanto, setores significativos da esquerda brasileira, chegando aos governos, em todos os níveis, no lugar de utilizarem a estrutura do Estado para construir uma nova correlação de forças, sustenta-se em alianças com os setores mais retrógados e com as práticas conhecidas do toma-lá-da-cá.

Diferentemente do que propagam os ideólogos direitistas, as ideologias e a luta de classe permanecem, e, justamente por isso, as ruas foram ocupadas em junho. O ato iniciado pelos estudantes ganhou apoio e a simpatia de grandes massas, as quais acabaram sendo, mais uma vez, manipuladas pela grande imprensa a serviço da velha direita, detentora do capital e do controle político do país. Não foi à toa que a repressão foi tão grande, não escapando ninguém da violência policial. Logo após o dia 6 de junho, quando o ministro da Justiça ofereceu a Guarda Nacional para reprimir as manifestações ficou claro que não seriam poupados esforços para impedir que as manifestações colocassem em risco o modelo de governabilidade, que mesmo não agradando setores da alta burguesia, unifica as elites que controlam o Estado brasileiro.

A lição das Jornadas de junho deve ser tirada por todo o povo, especialmente por quem ainda acredita que o caminho para construir uma sociedade mais justa é a efetiva participação da população nas lutas em defesa de direitos e contra a velha prática que controla o Estado, colocando-o inteiramente a serviço dos mesmos de sempre. A luta contra a corrupção passa pelo combate a forma de se relacionar na sociedade, onde uma minoria acha que tudo pode e tem direito a tudo, como se fosse normal os trabalhadores continuarem sendo apenas mão de obra para sustentar alguns privilegiados, produzindo a mais valia que alimenta e sustenta a exploração.

É preciso entender que a juventude, que nunca participou de política, precisa ser organizada, ao mesmo tempo em que “velhos” dirigentes precisam aprender que a horizontalidade e participação coletiva é a nova forma de fazer a ação política. As redes sociais são as novas formas de se organizar, debater e mobilizar, e isso não tem volta. Deve-se observar que as jornadas de junho são apenas o prenuncio do que a história reserva caso não se mude a forma de tratar a sociedade e usar a rés - pública, que não é patrimônio de nenhuma oligarquia, pretensamente de esquerda ou considerada propriedade sagrada pela carcomida direita.

Este livro permitirá analisar esse importante momento vivido pelo povo brasileiro, quando a ousadia, a criatividade e a coragem fizeram com que se comprovasse que ainda há sonhos e lutas na defesa da dignidade humana e em defesa de um Estado que sirva a toda a sociedade, e não somente a um pequeno grupo de privilegiados.

Pedro César Batista

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