quinta-feira, 7 de março de 2013

O Fórum Social Mundial: De Porto Alegre (2001) a Túnis (2013). O Outro Mundo Possível de Chico Whitaker



Sergio Ferrari

Colaborador de Adital na Suiça. Colaboração E-CHANGER

Adital

Tradução: ADITAL

“A sociedade civil planetária percorre seu próprio caminho, que não é simples e nem linear”

Nesse processo em marcha de apenas doze anos de vida, existem tantos avanços alcançados quanto desafios pendentes. Assim expressa-se Francisco “Chico” Whitaker, ativo cofundador-ativista-pensador do Fórum Social Mundial (FSM) desde sua primeira edição, em 2001, em Porto Alegre, e membro desde então do Conselho Internacional, a instância facilitadora do FSM. Com quase 83 anos, o Prêmio Nobel Alternativo da Paz de 2006 atua, reflete, conceitualiza e olha para o futuro desse espaço altermundialista. Próxima parada no caminho: a edição 2013 de Tunes (26-30 março), tema dessa entrevista a escassas semanas de sua realização.

P: O próximo fórum se realizará por primeira vez no Magreb, região de intensas mudanças políticas e sociais nos últimos anos. Como foi a decisão por esse local?

Chico Whitaker: Foi o resultado de diversas proposições anunciadas por organizações e movimentos sociais. O Conselho Internacional, que não é um órgão de governo e nem um conselho de administração, mas uma instância facilitadora foi construindo a decisão do lugar de maneira consensual. É óbvio que um Fórum em Tunes nesse momento pareceu muito propício em razão do significado positivo da ‘primavera árabe’ para todas as lutas mundiais. Não podemos esquecer que esse movimento social tem inspirado milhares e milhares de jovens que ocuparam –e, em alguns casos, ainda continuam ocupando- centenas de praças em todo o mundo, exigindo mudanças. Nem tampouco se pode esquecer o papel protagônico da mobilização das sociedades civis tunisina e egípcia para derrotar as ditaduras nesses países.

O FSM em uma região explosiva

P: O assassinato do dirigente opositor Chukri Belaïd no dia de fevereiro passado relançou uma intensa mobilização social em Tunes. Sua leitura dessa situação frente ao FSM 2013?

Chico Whitaker: Os acontecimentos da primeira quinzena de fevereiro nos comoveram muito. O crime brutal despertou uma reação cidadã muito intensa. O grande desafio de Tunes hoje é não sair da democracia. Os integrantes do Comitê de Organização do FSM mobilizaram-se imediatamente para condenar esse crime. Um comunicado assinado por mais de uma centena dos membros do Conselho Internacional do FSM assinala que esse fato não poderá frear o processo iniciado pelos democratas tunisinos, com quem somos solidários. Estamos convencidos de que as forças democráticas saberão manter a convicção profunda de eleger a resolução pacífica dos conflitos como via para avançar no processo democrático. Mais do que nunca, estamos convencidos também da necessidade da mobilização internacional para garantir o sucesso do FSM 2013 e que seja um momento forte de apoio ao processo democrático em Tunes.

P: Em que medida as forças ativas do Magreb em geral e de Tunes, em particular –me refiro a movimentos sociais, sindicatos etc.- estão realmente envolvidos na preparação e na concepção desse FSM?

Chico Whitaker: Durante a ditadura de Ben Alí, a sociedade civil tunisina contou com um núcleo de organizações ativas. Desse núcleo, pode-se dizer que todas estão diretamente envolvidas na preparação do FSM e constituem seu Comitê Organizador. Entre elas, a grande central sindical, os movimentos de direitos humanos, movimento de mulheres etc. É importante recordar que o ato de lançamento do processo do FSM foi promovido pelo Sindicato dos Trabalhadores Tunisinos na cidade mineira na qual a revolução começou, de fato, em 2008. Depois da queda da ditadura, surgiram várias organizações que se envolveram no processo. E muitas delas participam nas diferentes comissões criadas para realizar o FSM. Da mesma forma, a sociedade civil organizada dos outros países do Magreb está presente.

P: As mulheres, que têm um papel fundamental na primavera árabe, porém, são um setor ‘perdedor’ na pós-primavera, poderiam recuperar uma certa hegemonia no marco do FSM?

Chico Whitaker: As organizações que lutavam pelos direitos das mulheres já eram fortes durante a ditadura e foram fundamentais em sua queda. Não creio que se tornem agora hegemônicas; porém, serão igualmente importantes. Inclusive, o FSM fará um espaço “mulheres”, que, estou certo, ocupará um lugar chave e será vibrante.

P: O FSM 2013 é entendido como uma oportunidade para aproximar ainda mais as experiências locais com os participantes chegados dos lugares mais diversos…

Chico Whitaker: Sem dúvida. Irá muita gente de todo o mundo. Uma ocasião para falar diretamente com os atores da revolução –tal como eles chamam ao seu movimento-; para compreender melhor o que aconteceu na região; para conhecer melhor como os atores sociais participaram e continuam participando; para constatar a coragem, a tenacidade e a esperança dos que promoveram a primavera árabe e continuam impulsionando-a, mesmo à custa de seu próprio sacrifício.

P: Um Fórum novamente universal –visto pelo lado dos onze eixos temáticos propostos- porém, com um acento local, nacional, regional…

Chico Whitaker: De fato. Ao vernos as mais de 2.700 organizações registradas para participar e o número de atividades autogestionadas propostas que se aproximam a 1.500, não restam dúvidas de que Tunes oferecerá um marco de debate mundial com problemáticas e temáticas das mais diversas que se pode imaginar. Porém, se compreendemos a marca do processo histórico de mudança que vive a região do Magreb / Makrech, entenderemos que um dos principais desafios dessa edição será o de reforçar a luta tunisina e regional a favor de um país e de uma região mais igualitária. E que essa sinergia entre o global e o regional sirva como um passo a mais no caminho de todos os que aspiram por “outro mundo possível”. Especialmente na busca de formas de abordar com novas proposições e articulações os enormes desafios que a humanidade confronta hoje.

P: Está prevista uma numerosa participação?

Chico Whitaker: Fala-se modestamente de 50 mil participantes. Porém, nunca é possível prever isso com exatidão. A metodologia participativa continua sendo a mesma de outros FSM: os participantes são convidados a inscrever atividades auto-organizadas sobre os temas que eles mesmos decidem trabalhar. Inclusive, as Assembleias de Convergência no final são auto-organizadas e podem ser muitas. O restante depende da capacidade das pessoas de intercambiar e articular-se.

Avanços positivos, desafios pendentes

P: Olhando os escassos doze anos de existência desse processo denominado Fórum Social Mundial e levando em consideração algumas críticas de cético-altermundialistas existentes, qual é o seu balanço quanto a objetivos e resultados do FSM?

Chico Whitaker: Em 2001, e como síntese, colocávamos quatro objetivos para o FSM. Que o mundo escutasse um grito de esperança. Em segundo lugar, refletir-promover uma nova forma de fazer política e de entender a cultura política. Além disso, reconhecer, avaliar, integrar um novo ator político emergente, a “sociedade civil” autônoma de partidos e do governo. E, em quarto lugar, entender que nesse momento histórico da humanidade não é suficiente resistir e protestar, mas avançar na construção de alternativas concretas ao sistema. Para fazer o balanço, deveríamos avaliar onde estamos hoje quanto a esses quatro desafios…

P: Poderias, rapidamente, avaliar cada um dos quatro…?

Chico Whitaker: Como alternativa ao Fórum Econômico de Davos, que difundia o pensamento hegemônico, surgiu o “Outro Mundo é Possível”, como contestação e resposta. De certa maneira, esse objetivo foi alcançado e asseguramos que uma voz da esperança se alce. Os FSMs, em seus diferentes níveis –mundiais, nacionais, regionais, temáticos- promoveram a possibilidade da alternativa; confrontaram a visão hegemônica. Temos que reconhecer, no entanto, que a mensagem de esperança não chegou ainda a cada país e a todas as regiões.

A ideia de uma nova cultura política, antecipada já nos anos 90 pelos Zapatistas do México, baseada na diversidade, na horizontalidade e na unidade de todos os atores sociais, também forjou passos importantes na última década. Nesse tempo, se reforçou a compreensão que essa nova cultura é imprescindível para mudar o mundo. Porém, tampouco nesse caso, tudo é fácil e linear. Essa visão alternativa ao verticalismo e o piramidal deve continuar avançando em um longo caminho.

O papel emergente da sociedade civil também tem sido consolidado. Muitas mobilizações paralelas às grandes conferências da ONU e de outros organismos internacionais são prova disso. As experiências dos movimentos “ocupa”, nos Estados Unidos, e dos “indignados”, em diversas regiões do mundo expressam essa força da autonomia em relação aos governos e aos partidos na construção de um poder político diferente.

Para terminar, nesse olhar retrospectivo, o tema das alternativas. Se pode avançar na identificação das expressões do sistema capitalista. Algumas alternativas foram propostas nos espaços criados no processo do FSM. Novas questões e temáticas foram incorporadas com maior ênfase ao debate, em particular, as relativas ao meio ambiente, que já é uma preocupação quase generalizada no mundo.

Porém, temos que reconhecer que a aplicação dessas alternativas é muito mais difícil do que sua identificação. Por quê? Porque para tornar possíveis as mudanças estruturais é necessária a ação de governos e estados, inclusive no que diz respeito à mudança das leis. E a correlação de forças em âmbito global continua sendo muito desfavorável à sociedade civil, ainda muito fragmentada. Somando-se a isso o papel da maquinaria dos meios de informação e comunicação dominantes monopólicos, freiam ou retardam o processo de conscientização. Em síntese, nesses doze anos, houve avanços significativos; porém, se mantêm abertos desafios não menos importantes para construir esse outro mundo possível.

A confiança na juventude

P: Apesar de idas e vindas, de avanços e retrocessos, aos seus 83 anos, mantém a confiança, quase utópica, desse outro mundo possível?

Chico Whitaker: Sem dúvida, não é fácil; particularmente no que se refere a essa nova forma de conceber e fazer a política; ou seja, as mudanças estruturais na atividade política. Porém, nesse sentido, devo reconhecer que estou aprendendo muito com os movimentos de indignados e ‘ocupa’, e tento que suas experiências ajudem ao processo do FSM. E mais: esses jovens aumentam minha confiança na possibilidade de mudar o mundo. E com o passar do tempo e o transcorrer da vida vamos descobrindo realidades nunca imaginadas, que nos obrigam a lançar-nos a compromissos completamente novos. Um exemplo é o que aconteceu comigo e com minha companheira após o desastre atômico de Fukushima. Ao tentar compreender mais e melhor o que a aventura nuclear implica, não paramos de surpreender-nos com os riscos. Realidades que desconhecíamos, muito influenciados pela desinformação reinante, que nos tornava cegos. Tudo isso para dizer que, enquanto tenhamos as forças, não deixaremos de lançar-nos a novos desafios de compromisso, para ajudar a despertar-nos e despertar a outros…. Com esse espírito, participaremos em Tunes, em uma atividade auto-organizada sobre esse tema tão essencial.

[*Sergio Ferrari em colaboração com E-CHANGER, ONG Suíça de cooperação solidária, sustentada pela FEDEVACO e pela Federação genebrina de Cooperação].

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