terça-feira, 10 de julho de 2012

A guerra biológica no Araguaia

Por Paulo Fonteles Filho.

A modalidade de guerra biológica é conhecida pela humanidade desde a Antiguidade e consiste no uso de microorganismos ou de toxinas letais para matar ou incapacitar adversários. Considerada uma das mais temidas armas de guerra, a biológica têm efeitos devastadores e desconhecidos para a maioria dos médicos na atualidade.

Nos termos do Brasil há registros dessa guerra suja no conflito contra o Paraguai (1865-1870).

Em um conjunto de documentos do Museu Mitre, na Argentina, indicam uma inconveniente carta de Duque de Caxias, patrono do Exército brasileiro, endereçada a Dom Pedro II. Nesse documento, o militar tupiniquim sugere que cadáveres infectados por cólera tivessem sido propositadamente lançados no rio Paraná com intuito de infectar os inimigos paraguaios.

A possibilidade destes acontecimentos na vida militar brasileira do Século XIX tem gerado muitas polêmicas entre historiadores e militares. Um dos maiores críticos da atuação brasileira na Guerra do Paraguai, o historiador José Chiavenato, afirma, ainda, que o Conde d´Eu, tido pelo Exército como herói militar nacional, costumava libertar paraguaios adoentados para que infectassem compatriotas no retorno as tropas guaranis.

Passados mais de cem anos o Exército brasileiro vai aos tempos de Duque de Caxias e de Conde d´Eu e volta a praticar, pela segunda vez em sua história os artifícios letais de guerra biológica. Agora, o inimigo, não são os paraguaios de Solano Lopez, mas os brasileiros que se insurgiram nos anos 70, nas matas do Pará ,contra a ditadura terrorista dos generais.

E quem vai nos contar essa história é o ex-mateiro Anísio.

Anísio até hoje vive no Jatobá, uma das muitas currutelas dos sertões do Araguaia. Em 1973, diante das pressões da repressão política passa a integrar, como rastejador, as várias patrulhas que promoveram a maior caçada militar que se têm notícia na história do Brasil contemporâneo.

Ao longo de mais de dois anos de pesquisas na região conflagrada da Guerrilha do Araguaia, sempre buscando informações que desvendem o paradeiro dos desaparecidos políticos, bem como os acontecimentos daquela epopéia resistente vamos nos deparando com informações que nos dão a nítida visão da brutal atuação das tropas oficiais de então.

Desde 1980, com a passagem da primeira caravana de familiares na região é que se sabe que camponeses, sob ameaças de torturas e assassinatos, teriam envenenado guerrilheiros que os procuravam para colher informações e, também, aplacar a fome. Esse relato de envenenamentos fora dado pela primeira vez pelo advogado da caravana, Paulo Fonteles, numa exposição aos caravaneiros em Marabá. O advogado e o Bispo Dom Alano Penna fizeram longa abordagem sobre o clima político na região e as táticas da ditadura militar naquela região, então área de segurança nacional.

Mas nunca ficou claro, nos anos que se seguiram, como é que fora utilizado veneno no arsenal das muitas armas utilizadas no Araguaia pelo regime dos generais. E Anísio vai nos esclarecer.

Diz o ex-mateiro que apartir de 1973, em todas as bases militares do Araguaia houve farta distribuição do inseticida “Aldrin” e a orientação do comando das operações militares de que os camponeses deveriam, naturalmente que sob fortes pressões e ameaças, envenenar a comida dos insurgentes do Araguaia. Sabe-se que centenas de lavradores, depois de torturados, levaram o inseticida para as suas casas. A intoxicação pelo “Aldrin” é sobre o Sistema Nervoso Central e é caracterizada por forte cefaléia, mal-estar geral, vertigens, visão borrada, náuseas e vômitos, dentre outros. Um inseticida absolutamente mortal se ingerido ou com o simples contato com a pele humana.V Foi assim com Elmo Correa, o “Fogoió”, morto por envenenamento. Afirma Anísio: “O Fogoió foi morto por “Aldrin”, isso foi na barraca do castanheiro Raimundão, na Pimenteira(...)”.

Anísio nos indica que o “Aldrin” era uma “massa branca, dissolvida em água”. E quem ministrava o veneno era um tal de “Dr.Piau” que, para o Anísio, “parecia um monstrão”.

Relata-nos o ex-mateiro que o “Fogoió” era amigo de “Raimundão” e que sempre o combatente visitava o castanheiro. Tinha confiança no amigo e que o Elmo Correa já havia ajudado-lhe muitas vezes.

O fato é que outros mateiros, os mais afinados com a repressão, sabiam disso e denunciaram o castanheiro o que fez com que o “Raimundão” fosse severamente torturado na Base de Xambioá. Ou ele envenenava o guerrilheiro ou pagaria com a própria vida se poupasse o combatente do veneno repressivo.

Diante do dilema, o castanheiro aplicou o veneno com seringa em um ovo entregue ao Elmo.

Sabe-se que o insurgente caiu morto uns 2 km da casa do castanheiro e teve a cabeça cortada à facão e seus restos enterrados ali mesmo.

O Elmo, antes de cair morto, estava fazendo um preparado de ervas que nos indica que os guerrilheiros já sabiam da aplicação de veneno, através de torturados camponeses, pelas forças armadas.

Anísio encerra o relato afirmando que o guerrilheiro caiu por cima da lata de óleo de soja que fervia as ervas do mato, e que, enfim, não teve tempo de ingerir e que poderia ter salvado-lhe a vida.

Qual a diferença dos corpos infectados por cólera lançados no rio Paraná na Guerra do Paraguai e a morte do guerrilheiro “Fogoió”?

O fim do sigilo eterno sob os documentos oficiais e a Comissão da Verdade irá esclarecer tenebrosos momentos da vida brasileira no sentido de vacinar nossa consciência nacional para a construção do futuro que queremos.

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