sábado, 17 de setembro de 2011

Elisabeths e margaridas

As histórias e desejos das trabalhadoras rurais cuja luta por justiça e paz no campo ganhou o nome de uma flor, guerreira incansável como elas
Por: Luiz Carvalho e Tatiana Melim

Publicado em 16/09/2011

Sob o sol escaldante, a cabeça protegida por chapéu de palha com uma fita lilás e uma margarida, Maria Delfino e a amiga Elisafrania sorriam e erguiam cartazes que pediam mais recursos para a agricultura familiar. Ambas haviam saído­ do Maranhão e se somavam a outras 100 mil. Vindas de norte a sul do país, do campo e da floresta, faziam da quarta edição da Marcha das Margaridas, em Brasília, a maior manifestação de mulheres do continente. “Somos de um assentamento humilde e passamos dificuldades. É muito difícil ter a terra para plantar, é muito caro. Mais difícil ainda é não ter estrutura para trabalhar. Vamos ver o que a Dilma pode fazer pela gente”, desabafou Maria Delfino, rumo à Esplanada dos Ministérios.

No dia da marcha, antes de o sol subir, elas já estavam de pé. Não foi fácil chegar ao Parque da Cidade, simbolicamente renomeado de Cidade das Margaridas durante os dois dias de agosto em que recebeu as manifestantes. Ansiosas, muitas levantaram às 3 horas do chão de terra batida, forrado com lonas pretas, para arrumar as fileiras de colchonetes e cobertores em que dormiram. As tendas brancas, que abrigavam todas elas, ajudaram a proteger do frio da madrugada. De dia, o sol era forte e o tempo, seco.

Na hora da refeição, a fila era grande. Chegar ao arroz, feijão e carne, vermelha ou de frango, podia levar perto de duas­ horas. Mas a espera era essencial para muitas, como Maria do Nascimento, de 58 anos. Ela passou dois dias e meio no ônibus do Rio Grande do Norte à Cidade das Margaridas e não tinha dinheiro para gastar na capital federal. “Não foi fácil chegar aqui. Estou na marcha porque sou uma margarida também. Sei que ela, a Margarida Alves, lutou muito, e quero continuar essa luta”, explicou.

O rosto marcado pelo sol e o corpo cansado não a fizeram desanimar. Foram meses de preparação. “Precisei juntar uns trocadinhos para poder ir no ônibus. As mulheres lá ajudaram em tudo, juntaram tudo o que a gente tinha, e deu. Mas aqui não tenho dinheiro, não, ainda bem que a comida da marmita não é pouca, né?”

Para essa potiguar, valeu a pena. “Esse sol aí eu já estou acostumada e o cansaço a gente esquece cantando. Quando eu voltar para casa, sei que a vida ainda não vai ser fácil, mas eu vim aqui para ver se um dia ela melhora”, disse sorrindo, ao terminar o refrão de uma das músicas entoadas na marcha: Olha, Brasília está florida. Estão chegando as decididas. Olha, Brasília está florida. É o querer, é o querer das Margaridas...

A quilombola e agricultora Severina Luiza da Costa, de 43 anos, de apelido Cida, desperta a atenção. Seu crachá informa que vem de Alagoa Grande (PB), justamente onde Margarida Alves construiu sua trajetória como presidenta do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, até ser assassinada, em 1983, fato que inspirou a criação da marcha. Cida é vice-secretária da organização e, compareceu ao Distrito Federal com uma questão prática: cobrar do governo a titulação do quilombo, aguardada há 11 anos. Da mesma forma, cada mulher ali trazia a experiência de Margarida Alves. Todas se sentiam parte do sonho sonhado pelas que batalharam e sofreram com repressão e violência.

A também paraibana Elizabeth Teixeira, de 86 anos, é exemplo vivo da perseguição sofrida. Viúva do fundador das Ligas Camponesas, João Pedro Teixeira, assassinado em abril de 1962, criou sozinha 11 filhos no meio rural e foi homenageada na abertura oficial do evento.

O movimento das Ligas Camponesas surgiu em Pernambuco e se espalhou no Nordeste ainda na década de 1950. João Pedro ajudou a organizar os camponeses do município de Sapé (PB), por volta de 1958. Com sua morte, encomendada por um latifundiário numa emboscada, Elizabeth assumiu a presidência da organização para dar continuidade à luta do marido – ela conhecia os riscos, diz, mas tinha convicção de que a reforma agrária aconteceria depois de tantas denúncias e com os trabalhadores mais organizados. “Dei continuidade à luta de JoãoPedro por amor a ele e também por acreditar que a luta vale a pena. Faz 49 anos que João morreu e a reforma agrária ainda não aconteceu.”

Elizabeth conta que o casal morava próximo aos engenhos Melancia e Sapucaia. A realidade comum a outras famílias de camponeses as unia – filhos passando fome, analfabetos e sem direito a uma escola. Quando sua organização em sindicatos e sua causa começavam a ganhar corpo na Paraíba, a resposta dos grandes proprietários, também donos da política e do dinheiro, vinha em forma de repressão e morte. O golpe de 1964 e a ditadura que o sucedeu sufocaram essa e outras lutas sociais por mais de duas décadas.

Retomada a democracia, os perigos persistem. A lista de lideranças rurais visadas por matadores, elaborada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), voltou a crescer. E segundo a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), a presença de mulheres na lista passou de 7% para 20%. Portanto, os motivos de Margarida e de Elizabeth continuam fortes.

“Na época que mataram João Pedro, a perseguição no campo era demais. Quando ele morreu e assumi o sindicato, quase todos os dias eu era presa. Mas não desisti”, diz Elizabeth

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