quarta-feira, 20 de julho de 2011

Polícia pede prisão de três suspeitos por morte casal de extrativistas no PA

20/07/2011 09h52 - Atualizado em 20/07/2011 11h18

Mandante é dono de terras em assentamento e está foragido, diz delegado.
Dois executores foram identificados; crime ocorreu por disputa de lotes.

Tahiane Stochero
Do G1, em São Paulo


Um deles é um trabalhador rural, dono de terras no assentamento em Nova Ipixuna, no sudeste do estado, e é apontado como mandante do assassinato. Os outros dois são os executores do crime, segundo o delegado Silvio Maués, diretor policial no interior do Pará.

Os três estão foragidos e não foram localizados pela polícia para prestarem depoimento sobre a suposta participação no crime. Eles foram indiciados por homicídio triplicamente qualificado.

“O dono das terras é o mandante. O crime ocorreu por disputa por um lote de terra que era de sua propriedade e que foi invadido por parentes de José Cláudio. Os dois tinham uma briga direta”, afirma Maués em entrevista ao G1.


Segundo ele, o dono das terras chegou a ser ouvido pela polícia na fase preliminar da investigação, mas depois fugiu da região e nunca mais foi localizado, diz o delegado.

Quando chegou a Nova Ipixuma, em 2010, o trabalhador comprou dois lotes de terra do assentamento, por cerca de R$ 50 mil cada um.

“Em um dos lotes ele morava e o outro, colocou no nome da sogra, em uma tentativa de mais tarde expandir as terras, porque até então cada pessoa só poderia ter um lote. Só que o José Cláudio entrou nesta área e colocou outras pessoas morando, inclusive seu irmão, e se negava a sair. José Cláudio era como um líder do grupo e enfrentava diretamente dono, impedindo a família de entrar na área”, explica o delegado.

A irmã de José Cláudio, Claudelice, foi informada pelo G1 que a polícia concluiu o caso e pediu a prisão dos três suspeitos. Ela disse que "já sabia" quem eram os autores do crime e afirmou que a área está sob disputa judicial para despropriação.

O crime
O casal foi morto em uma emboscada na estrada de acesso ao assentamento Praialta Piranheira, em Nova Ipixuna, onde moravam. José Cláudio e Maria estavam em uma motocicleta quando foram alvejados por disparos realizados por uma espingarda.

“O alvo era o José Cláudio, tanto que a perícia mostrou que o primeiro tiro foi direcionado para ele, mas ela (Maria) foi alvejada por estilhaços. Se não tivesse morrido em consequência disso, depois, com certeza, teria sido alvo de tiros também”, diz o delegado.

A polícia já havia divulgado o retrato-falado de dois suspeitos de terem executado o crime. O delegado diz que há informações de que os executores não receberam pelo trabalho. “Eles agora foram identificados, temos os nomes e as provas de sua participação. Sabemos que tem um enredo especial, eles tinham uma dívida com o mandante, as informações que temos afastam a possibilidade de pagamento”, acrescenta Maués.

Os três foram indiciados pelo crime de homicídio triplamente qualificado, diz o delegado. Os detalhes do crime estão sendo divulgados nesta manhã em Belém em uma coletiva à imprensa. Uma arma que supostamente foi utilizada nas mortes está apreendida, mas não foi possível confirmar se partiu dela os tiros que mataram o casal.


No dia do assassinato, Claudelice Silva dos Santos, irmã do ambientalista, afirmou ao G1 que o casal possuía inimigos. As vítimas teriam registrado queixas, na delegacia de Marabá, pelas ameaças constantes que sofriam.

“Nós somos ambientalistas e envolvidos com o movimento social. Muitos fazendeiros e madeireiros tinham interesse em que meu irmão e a mulher não atrapalhassem mais. Eles faziam denúncias de desmatamento, grilagem de terras e sempre foram ameaçados, mas nunca imaginamos que essas ameaças seriam consolidadas”, afirma.


De acordo com Claudelice, a residência do casal já havia sido invadida e revirada inúmeras vezes. O casal já teria sofrido outros atentados anteriormente.

“Muita gente tinha interesse na morte dele, porque realmente fazíamos as denúncias de crimes contra o meio ambiente. Temos certeza de que foi um crime que teve mandantes. É do interesse da família que se faça Justiça, não vamos deixar que isso fique impune como tantos outros aqui.”

Para a Polícia Civil, o casal não foi morto nem por agricultores nem por fazendeiros ou grileiros, mas por uma disputa interna entre eles no assentamento, diz o delegado.

Ameaças
Logo após o assassinato do casal, houve outras duas mortes no campo no Pará. O governo federal determinou o envio de tropas da Força Nacional para a região para evitar que novos ataques ocorressem.

Na madrugada de 18 de junho, duas famílias de agricultores que estavam sofrendo ameaças de morte no assentamento Praialta Piranheira tiveram de ser retirados de suas casas por terem sido cercados por pistoleiros, possivelmente contratados por fazendeiros que são contra a permanência de ambientalistas da região. Eles foram levados para Marabá e receberam proteção, assim como outros ambientalistas listados pelo governo como em situação de risco.

0 comentários:

Editado por iMaque - Soluções em Sustentabilidade