segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Consumo é uma verdadeira droga

Por Pedro César Batista

Encerra-se um ano. Novamente refazemos as análises dos fatos e reelaboramos os projetos e os sonhos. Avalio que esse fim de ano merece uma reflexão diferente. Além de um novo ano que começa encerra-se um governo nascido das lutas populares, dos sonhos brotado nas ruas em passeatas e greves. Um governo que teve um presidente vindo do movimento sindical, que contribuiu efetivamente para colocar fim a uma ditadura com quase duas décadas no poder, no final dos anos de 1980. Lula concorreu e perdeu três eleições à Presidência da República. Na quarta tentativa, após uma composição com setores mais a direita, conseguiu chegar ao posto mais alto da política brasileira. Reelegeu-se quatro anos depois e agora conseguiu emplacar a sua candidata, Dilma Roussef, primeira mulher que presidirá o Brasil, substituindo o primeiro operário que esteve no cargo e se manteve por oito anos, saindo com uma aprovação quase unânime da população brasileira.
O jurista Fábio Konder Comparato, em entrevista a revista Caros Amigos (nº 163 – outubro/2010), afimou que “o advento do Lula em nossa política atual representou para os nossos oligarcas algo como ganhar o maior prêmio da megasena”. Segundo as palavras do jurista, Lula nunca encarnou um perigo às oligarquias, “pois mantém o povo muito satisfeito, mas num estado de perpétua menoridade”.
Parece uma infâmia falar isso do grande líder, reconhecido internacionalmente, chegando a ser chamado pelo presidente dos EUA, como “o cara” e indicado por Evo Moralez, presidente boliviano, para a Secretaria Geral das Nações Unidas.
Nunca em nosso país, repetindo o bordão presidencial, os Bancos tiveram lucros tão elevados, assim como nunca em nosso país houve um boom do consumo, deixando o comércio, os prestadores de serviços e a indústria, assim como os consumidores, em completo êxtase. Tudo isso se reflete no comportamento humano. Sempre as luzes provocaram atração assim como as cores, mais e mais brilhantes. O mesmo se dá com os bens de consumo, cada vez mais sofisticados e com possibilidade de acesso a toda a população. Sem dar um centavo de entrada, pagando em 60 parcelas, pode-se sair da loja com um automóvel do último modelo. Basta ver as avenidas entupidas. A mídia massifica que é preciso consumir, podendo, quando o fizer, até mesmo chegar antes aos céus. Há até igrejas que fazem cultos somente para isso, assegurando que é possível assim viver imediatamente no Paraíso. Como um poderoso alucinógeno o consumo cresce, influenciando pessoas de todas as idades e classes.
No entanto, depois de oito anos de Lula na Presidência, ainda estão pautados alguns temas de interesse e relevância, os quais se tornaram tabus em vários debates, pois essa omissão levou a população a crer que todos (políticos e pessoas) são iguais ao desenvolverem a mesma pratica da mentira e do cinismo. Isso impediu que se realizasse a reforma política, assegurando a permanência de figuras esdrúxulas no comando de vários níveis de poderes da República, muitos dos quais aliados do presidente que deixa o cargo. O grande passo para mudar esse quadro deu-se graças à mobilização da sociedade, com a aprovação da Ficha Limpa. Fora isso, nada mais nesse campo aconteceu. Temas como as Reformas Agrária, Tributária, Sanitária, Educacional e urbana é coisa para governos futuros. Nem mesmo a votação para a desapropriação das terras onde se encontra trabalho escravo foi à votação no Congresso Nacional.
Pareço cético. Não, claro. Teve a bolsa família: o maior programa de transferência de renda do mundo. Transferência de renda ou de dependência? Acabar com a fome é muito necessário, dizia Betinho, “quem tem fome, tem pressa”. Não dá para esperar. Mas se passaram oito anos. E ainda pudemos acompanhar ao vivo pela televisão cenas que lembraram a ocupação de Canudos (1898), com o exército brasileiro e a polícia carioca subindo os morros em seus blindados, sem nem mesmo levarem cestas básicas, apenas as balas contra os bandidos do tráfico, enquanto os chefes estavam no asfalto assistindo às notícias. Os barracos eram invadidos sem ordem judicial, um estado de sítio sem ser decretado.
Termino 2010 com um gosto de dor e tristeza, minha mãe faleceu em setembro. Entretanto começo 2011 cheio de esperanças e sonhos, para não perder o hábito. Tenho ainda a crença que saberemos nos indignar, mobilizar e voltar às ruas para propagar velhos sonhos, desconhecidos pelos mais jovens. Saberemos nos contrapor ao individualismo, que cada vez mais se sobrepõe aos sentimentos de cuidado, respeito e comunidade, capaz de fazer o amor, verdadeiro sentimento dos revolucionários, brotar novamente em mentes e corações. O consumo é a verdadeira droga dos tempos atuais, o qual trará muito mais danos, além dos valores deturpados, mudanças climáticas e o cinismo dos governantes e das oligarquias.

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