quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Arquidiocese denuncia assassinatos de 31 moradores de rua em Alagoas

Karol Assunção *

Adital -
"Não bastasse a humilhação, a discriminação e o esquecimento, o morador de rua ainda tem de conviver com o medo de não amanhecer vivo". Isso é o que constata padre Rogério Madeiro, coordenador das pastorais sociais da Arquidiocese de Maceió, a respeito da atual situação de homens e mulheres que vivem nas ruas de Alagoas, estado do Nordeste brasileiro. Somente neste ano, 31 moradores de rua foram assassinados em todo o estado. Nesta semana, uma audiência pública na Câmara dos Vereadores discutirá o assunto.
De acordo com padre Madeiro, o caso mais recente aconteceu ontem (31) na capital alagoana. Agora, são 31 mortes nos dez primeiros meses do ano, 30 apenas em Maceió. Segundo ele, os crimes acontecem geralmente à noite e em locais onde há maior concentração de moradores de rua, como no Centro da cidade.
Apesar de a polícia suspeitar que os assassinatos sejam motivados por drogas e brigas entre os próprios moradores, o coordenador das pastorais sociais não descarta a possibilidade de "limpeza social". Segundo ele, o Ministério Público e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) também não deixaram essa hipótese de lado. "Nunca tivemos tanto [assassinato] assim", desconfia.
Notícias dão conta de que um relatório da Polícia Civil de Alagoas sobre os casos foi entregue na semana passada para a Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República, a qual pediu ao Ministério da Justiça o acompanhamento da Polícia Federal nos casos.
De acordo com o coordenador das pastorais sociais em Maceió, a Polícia Civil até já começou a investigar os casos, mas ainda não divulgou nenhum resultado. "Não chega a ninguém, [as investigações] não apontam ninguém", comenta.
Padre Madeiro lembra que tanto a Prefeitura quanto a Igreja possuem trabalhos sociais com os moradores de rua de Maceió, mas revela que não são suficientes para "suprir a carência" das cerca de 400 pessoas que moram nas ruas da capital alagoana.
Nota
A Igreja Católica também não ficou calada diante do elevado número de mortes. Na última quinta-feira (28), a Arquidiocese de Maceió divulgou uma nota pedindo a investigação dos casos e o respeito a essa parcela da sociedade. O documento, assinado por Dom Antônio Muniz Fernandes, Arcebispo Metropolitano de Maceió, destacou ainda a falta de resultado das investigações sobre os casos.
"A Igreja acompanha este longo e doloroso calvário de nossos irmãos e irmãs que vivem nas ruas. Inúmeras vezes, de forma pública e privada, dirigindo-se às autoridades sem obter resposta", afirmou, pedindo às autoridades que investiguem os fatos com seriedade a fim de que não fiquem impunes.
Da mesma forma, alertou católicos/as e demais setores da sociedade sobre os crimes cometidos contra os moradores de rua e pediu que todos "contribuam, com suas atitudes, a criar um clima de verdadeira fraternidade e de efetiva justiça".
Audiência Pública
Para discutir a situação dos moradores de rua na capital de Alagoas, a Câmara dos Vereadores de Maceió realizará, na próxima quinta-feira (4), uma audiência pública sobre o assunto. O debate está marcado para acontecer às 10h no Plenário da Câmara (Praça Marechal Deodoro da Fonseca, Centro - Maceió).

* Jornalista da Adital

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