quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

"Os mártires da luta pela terra simbolizam o interesse de todo o povo"

Por Bruno Pinheiro

O livro “João Batista: mártir da luta pela reforma agrária” é a biografia de uma das maiores lideranças camponesas da década de 80. Eleito deputado estadual do Pará em 1986, João Batista foi assassinado por sua coerência com a militância revolucionária. O crime aconteceu em dezembro de 1988 no centro de Belém, na frente da esposa e da filha, que também tomou um tiro na perna.

Pedro Batista, autor do livro e irmão de João, conta uma história real e apresenta fatos que atestam o descaso das autoridades com os produtores rurais. O livro, que inspira revolta, desmascara o modus operandi da criminalidade no campo, que instrumentaliza as estruturas do Estado em benefício da acumulação de terras.

Nesta entrevista, Pedro fala sobre a atuação dos movimentos sociais, opina sobre o esquecimento de mártires e analisa a luta pela reforma agrária ontem e hoje. Sobre os motivos que o levaram a escrever a biografia de seu irmão, ele afirma: “Ele não usou em vão o nome dos trabalhadores. Batista é um exemplo a ser seguido, mas para isso sua história precisa ser conhecida, especialmente pela juventude”.

Bruno Pinheiro - Qual foi a sua idéia ao resolver escrever o livro que recebeu o nome de "João Batista: mártir da luta pela reforma agrária?"

Pedro Batista - Atuo na luta do povo há quase 30 anos. A cada dia mais vejo como são deixados de lado importantes referenciais para se transformar a sociedade. A luta política, especialmente a travada por partidos, transformou-se num verdadeiro balcão de negócios. Os interesses comunitários, populares, ambientais e em defesa da vida foram colocados em terceiro, quarto plano. O que importa é ter fatias de poder e consumir. Para atingir isto pratica-se um vale tudo nas relações humanas.

"Se o povo tomar conhecimento de sua verdadeira história de lutas, certamente aprenderá que a luta é o único caminho a seguir"
Então, a partir desta realidade, como conhecedor da história de João Carlos Batista, um combatente do povo que foi até as últimas consequências na defesa de uma sociedade mais justa, senti-me na obrigação de resgatar a sua história. As contribuições de João Batista na luta por justiça social, não apenas a luta pela reforma agrária, onde se dava sua atuação mais destacada, foi de grande importância. Resgatar a sua história é apontar práticas e comportamentos que combatem as injustiças sociais, o oportunismo, a degradação ambiental, a desvalorização da vida e a mentira, significa propagar a esperança, a luta e o respeito ao trabalho e aos trabalhadores. Ele não usou em vão o nome dos trabalhadores. Batista é um exemplo a ser seguido, mas para isso sua história precisa ser conhecida, especialmente pela juventude. Por isso escrevi o livro.

Bruno - No decorrer do livro são apresentadas, só do Pará, diversas pessoas que pagaram com a própria vida por não desistirem de lutar pelo que acreditavam, entre elas João Batista, seu irmão. Ainda hoje há pessoas perdendo a vida por se manifestar e resistir às dominações impostas pelos detentores do poder econômico e político. Por que, em sua opinião, tantas pessoas morrem em nome de causas sociais e tão poucas são lembradas pela sociedade?

Pedro - A classe dominante massacra o povo de todas as formas. Primeiramente controla a economia, mantendo a maioria em condições de pobreza e miséria. Em seguida impõe valores culturais e ideológicos, massificando a população através dos meios de comunicação. A Tv cumpre um importante papel dominador a serviço dos poderosos. Eles usam ainda a violência física contra os mais pobres. No Rio de Janeiro a polícia mata diariamente gente humilde, sempre "em confronto". Em São Paulo não é diferente. É uma guerra dos poderosos contra os mais pobres.

"Somente a juventude poderá acabar com os sectarismos e o dogmatismo que ainda prevalece em certos setores que estão em luta. Essa luta é de todos e os jovens, que têm papel determinante nessa caminhada"
Então quando aparecem pessoas que passam a organizar o povo para enfrentar essa guerra econômica, ideológica e militar os representantes do status quo não vacilam: matam. E na luta pela terra aqueles que defendem a reforma agrária têm sido assassinado em grandes quantidades. Os assassinos, pistoleiros ou policiais, e os mandantes em quase a totalidade dos casos estão impunes. Muitos mandantes, inclusive, são detentores de mandatos políticos. Quando o morto tem alguma ligação com organizações mais fortes, estas resgatam a memória desses combatentes. Assim é o caso de Chico Mendes, Irmã Doroty e poucos outros. A grande maioria dos mortos na luta do campo é como João Batista. São colocados no esquecimento. São mortos e depois a história desses mártires é esquecida. Tornar conhecida a vida desses mártires não interesse à classe dominante. Se o povo tomar conhecimento de sua verdadeira história de lutas, certamente aprenderá que a luta é o único caminho a seguir. Resgatar a memória de Batista e de outros companheiros assassinados é animar a luta, assoprar a chama da rebeldia, da indignação e da esperança.

Bruno - Pra você, qual o lugar da reforma agrária nos processos de transformação social no Brasil?

Pedro - Apesar de o Brasil possuir uma área agricultável maior que a área semelhante da China, nossa produção de alimentos é menor. As boas terras são destinadas ao agronegócio, que devasta enormes áreas, usa agrotóxicos e ainda trata seus empregados como escravos. Essa produção e monocultura somente servem à acumulação de riquezas, crescimento da miséria e a destruição ambiental. Se não fosse a luta dos trabalhadores rurais, que se organizam e ocupam as terras, nunca teriam sido assentadas famílias camponesas em nosso país. A violência urbana também é consequência disso, pois ao longo de décadas os camponeses foram expulsos para os grandes centros e obrigados a viver em condições subumanas em favelas.
"O mais grave nessa caminhada são aqueles que para terem acesso às migalhas cedidas pelos detentores do poder mudam de lado, traem a sua história, passam a servir ao capital e ao latifúndio"
Considero que a realização da reforma agrária está em primeiro lugar: possibilitaria aumentar a produção de alimentos de primeira necessidade, preservaria o meio ambiente, pois a agricultura familiar é sustentável, reduziria a violência com a geração de emprego e renda, diminuindo a pressão existente nos centros urbanos. A luta pela reforma agrária, a luta em defesa da vida e da sustentabildidade andam juntas.

Bruno - Nas palavras do João Pedro Stédile, o livro "é um registro fiel da luta de classes na Amazônia" na década de 80. Qual a sua análise do atual contexto da luta pela reforma agrária?

Pedro - Na atualidade o grande inimigo é o agronegócio. Como disse na resposta anterior ele usa trabalho escravo, devasta a natureza, desenvolve a monocultura e aprofunda a miséria em nosso país. E na região amazônica o agronegócio é muito forte. O governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, é um dos mais fortes produtores de soja do mundo, causando com sua produção danos irreparáveis ao ecossistema. Em Roraima os arrozeiros causaram grandes danos aos povos indígenas e a natureza. O governador deste estado em nenhum momento defendeu a Constituição Federal (que assegura as reservas indígenas em terras contínuas), mas foi veemente na defesa dos interesses desses fazendeiros. No Pará e Maranhã tem sido comum fiscais do Ministério do Trabalho libertarem trabalhadores em condições de escravidão. Então lutar pela reforma agrária continua sendo uma das mais importantes bandeiras de todos os movimentos sociais brasileiros.

Bruno - Se aproximando do aniversário de 25 anos, o MST fala em recolocar a importância da reforma agrária na pauta da sociedade. Relembrar os mártires desta luta não pode ser uma forma de fortalecer este assunto?

Pedro - Quero isso com o resgate da história de João batista. Segundo o professor José Carlos Saboia, da UFMA, Batista foi a maior liderança camponesa dos anos 80 no Brasil. Faz 20 anos do assassinato desse mártir e agora que sua história está sendo resgatada. E por quem? Por irmão. Isso mostra que a luta pela reforma agrária precisa estar na ordem do dia de toda a sociedade. Assim como resgatar a memória dos mártires da luta pela terra deve ser uma tarefa de todos, não apenas de organizações que perdem seus membros. Os mártires da luta pela terra simbolizam o interesse de todo o povo, por isso devemos trazer para a rua a luta pela reforma agrária, aliada a luta pela sustentabilidade.

Bruno - Uma das maiores necessidades dos movimentos do campo é articular suas bandeiras com as lutas urbanas. Na sua visão, que papel a juventude pode exercer neste processo?

Pedro - Isso será determinante. Sem a unidade campo cidade não conseguiremos romper as amarras do atraso imposto pelo capitalismo. É preciso que as populações urbanas compreendam que as lutas dos trabalhadores rurais estão intimamente ligadas aos interesses urbanos. Significa reduzir a pressão das grandes cidades, reduzir a destruição ambiental, aumentar a produção de alimentos, criar alternativas de abastecimento alimentar que não dependam do latifúndio monocultor e danoso à vida em todas as suas formas.
"Quando o morto tem alguma ligação com organizações mais fortes, estas resgatam a memória desses combatentes"
Somente a juventude, das cidades e do campo, poderá forjar essa unidade, construir um amplo movimento capaz de fazer retomar as grandes mobilizações e arrancar as conquistas que a sociedade brasileira precisa. Somente a juventude poderá acabar com os sectarismos e o dogmatismo que ainda prevalece em certos setores que estão em luta. Essa luta é de todos e os jovens, que têm papel determinante nessa caminhada. Ler João batista, mártir da luta pela reforma agrária certamente contribuirá na construção dessa compreensão e dessa unidade imprescindível.

Bruno - Pra encerrar, a que você credita, hoje, a morte de seu irmão?

Pedro - À violência secular imposta pelo latifúndio e as demais classes dominantes, acostumadas com essa prática e a impunidade assegurada pelo Estado, que com seus governantes atuam como asseclas desses poderosos, verdadeiros parasitas que se sustentam na miséria e ignorância que disseminam. João Batista sabia que corria risco de ser assassinado. Antes dos latifundiários conseguirem seu intento realizaram três atentados. Assim como meu irmão, muitos também tombaram. O mais grave nessa caminhada são aqueles que para terem acesso às migalhas cedidas pelos detentores do poder mudam de lado, traem a sua história, passam a servir ao capital e ao latifúndio. A luta que tantos mártires levaram permanece. Infelizmente muitos de nosso lado ainda poderão tombar, mas certamente chegará o momento em que fazendeiros, políticos e oportunistas de todas as espécies que se aproveitaram do assassinato de Batista pagarão o preço devido. A história está ai para mostrar que sempre haverá quem continua combatendo esses assassinos e exploradores. A luta de João batistra é a luta de todos aqueles que acreditam na vida.

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