terça-feira, 26 de novembro de 2019

Ainda há herdeiros de Prometeu.



A porta quer se fechar, ao mesmo tempo a luz não quer ficar acesa. Há uma insistência em prevalecer um tempo cinza, sem brilho, sem cores, sem o calor de um verdadeiro abraço. Abundam negociantes, de todos os espectros. Uma tontura permanente, vertigem no olhar, indica um precipício. Cérbero quer ressuscitar antes da hora a partida para seu reino. Ainda não é tempo de ir. A estrada ainda me espera.

Por muito tempo alimentaram-se criminosos e demagogos. Eles encheram suas bolsas de ouro. Usaram a vida, o sangue e a dor para isso. Os outros, não fizeram diferente. Bamburram-se em nome do povo. Ambos se sentaram na mesma mesa. Brindaram as migalhas distribuídas, assegurando aos velhos senhores as minas de ouro, as terras férteis e rios de leite e mel.

O tempo está fechado. Assassinos estão no poder. Riem e mentem enquanto babam o sangue puro de Ághata, Batista, Marighela, Olga, Margarida e Guevara. Milhões e milhões foram assassinados. E os assassinos seguem no poder. Possuem porta-vozes em púlpitos e em redes poderosas que propagam suas mentiras, as verdades dos criminosos, ladrões, assassinos e fanáticos. Usam o nome de Deus e da Família. Controlam o Estado.

O tempo é cinzento, há um silêncio contagiante nas vozes que não se dispõem a forjar o amanhã, um novo amanhã, como fez Lênin que uniu todas as forças contra o opressor. Busca-se apenas as cadeiras da antessala do império, quando se deveria destruir os castelos e palácios.

Tudo está nublado, um frio contagiante, bolsas ávidas por moedas se confundem aos fascistas, assassinos que estão no poder.

Quantos não buscaram acumular riquezas e se dedicaram a espalhar a dignidade? Quantos ousaram espalhar o fogo da ousadia de Rosa? Quantos efetivamente se dispuseram a organizar e unir a indignação para construir a Revolução? Quantos se arriscam a enfrentar Cérbero para conquistar a vida, sem estarem preocupados com sua comodidade pequeno-burguesa?

A luz resiste. Trovões se espalham. Multidões ousam desafiar o poder, enfrentar as balas que cegam, os gases que matam, as propagandas em novelas e redes que divulgam a felicidade do consumo. Há ainda quem não fala: quantos você trouxe? Quem busca dar a vida por outras pessoas. Ainda há herdeiros de Prometeu. Muitos que não se sujeitam a Zeus. Logo Cérbero será devolvido ao subterrâneo.

Por Pedro César Batista

1 comentários:

Angélica Torres Lima disse...

Que belo o seu poema-em-artigo, Pedro. Trágico e real, mas belo.

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