domingo, 4 de agosto de 2019

Uma semana na Venezuela e o Foro de São Paulo – Parte I



(Pedro César Batista) O encontro do XXV Foro de São Paulo, ocorrido entre 25 e 29 de julho, em Caracas, Venezuela, mostrou a disposição de centenas de militantes e organizações democráticas, progressistas e da esquerda da América Latina, Caribe e de todos os continentes na busca por um mundo de justiça, igualdade e de paz. Diferente das mentiras propagadas pelos EUA e seus lacaios, o Foro foi um momento de unidade e força contra a opressão, exploração, ameaças e ataques do imperialismo, reafirmou a defesa da democracia, da vida, da natureza, do respeito à diversidade cultural e étnica, da solidariedade e o apoio aos venezuelanos, cubanos, nicaraguenses, bolivianos e todos os povos que ousam trilhar um caminho na construção da liberdade, independência, dignidade e da soberania. O Foro disse de forma uníssona que exige a liberdade de todos os presos políticos do continente, com destaque ao ex-presidente Lula, preso em uma ação orquestrada a partir de Washington.

Poder participar do encontro, representando o Comitê General Abreu e Lima em Solidariedade à Venezuela, ao lado de mais três camaradas, foi um grande privilégio. Pela primeira vez pisei no sagrado solo da terra de Bolívar, Chávez e Maduro.

Ressaltarei dois aspectos, a Venezuela e o XXV FSP, em duas partes. Agora falarei sobre a situação neste país irmão. Na segunda parte farei uma síntese sobre a grandiosidade do Foro de São Paulo.

A Venezuela e a herança de Simon Bolívar e Hugo Chávez<
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Durante o voo entre o Panamá e Caracas conversei com duas senhoras venezuelanas vindas dos EUA. Uma delas disse-me que “era preciso castigar o país, até conseguir tirar um presidente que não lhes representava”. Por outro lado, tive a alegria de viajar, nesse trecho, ao lado de um engenheiro de petróleo, que vinha de Beijing, China, onde havia ficado trinta dias, e dizia com alegria ao voltar para sua pátria: “Estamos superando todos os ataques dos traidores e vamos seguir avançando rumo ao socialismo”.

Fiquei uma semana em Caracas. Convivi com centenas de pessoas de aproximadamente 100 países, mas também convivi com o povo venezuelano. Entre o hotel, onde fiquei hospedado, e o local de realização do XXV Foro de São Paulo, bem no centro da cidade, fiz o trajeto, na maioria das vezes, caminhando. Cruzei ruas e avenidas com o povo que circulava. Entrei nas padarias, tomei café e conversei com populares, comerciantes e trabalhadores. O que vi, conheci e ouvi foi a voz de um povo, que apesar dos ataques, vive uma vida normal em uma cidade como outra qualquer do planeta. As pessoas saindo cedo para o trabalho, fazendo compras, divertindo-se em bares, lotando o metrô. Que é gratuito, no final da tarde, com a Estação Belas Artes repleta e com o alarido de jovens e idosos, homens e mulheres retornando para seus lares.

No caminho que fazia diariamente, encontrei padarias, farmácias, mercadinhos, lojas de serviços, bancas de verduras, frutas, artesanatos, discos e livros. Não havia muitos produtos, muitas prateleiras vazias, ainda assim lá estavam os principais itens de consumo. Em conversas com ambulantes era evidente o apoio ao processo revolucionário, especialmente dos vendedores de livros que me falaram da herança cultural de Simon Bolívar e da importância de Hugo Chávez para a retomada do sonho de liberdade e independência, iniciado em 1998 e a seguir com a Assembleia Constituinte, que garantiu uma nova ordem sustentada no Poder Popular, nas missões e Comunas por todo o país.

No final da tarde e início da noite de sexta feira, 26, encontrei nas calçadas e mesas dos bares, ruas, praças e por onde passava as pessoas tomando cervejas, rum ou outras bebidas, em um grande congraçamento. A noite apenas começava, trazia o prazer e a alegria, como ocorre em qualquer lugar do mundo em uma noite que começa o fim de semana.



Claro, vi dificuldades. Muitas, aliás. “Estamos enfrentando agressões e bloqueios contínuos”, ouvi de populares. Em alguns comércios são poucos os produtos expostos, porém nas prateleiras estão os principais itens para a alimentação, higiene, lazer, saúde e a garantia do atendimento pleno às necessidades humanas. Infelizmente, há falta de alguns produtos, os quais dependem de insumos controlados pelos velhos oligarcas e os EUA, que sabotam e impedem o acesso, seja com o bloqueio ou com preços elevados, tornando inacessível o acesso. Porém, os preços dos produtos disponíveis, comparado com os preços no Brasil, são muito baixos. O litro da gasolina, por exemplo, custa menos 0,10 centavos de real. Um preço inimaginável para o brasileiro. O pão também custa o preço de centavos de real.

Importante ressaltar, que nesses 7 dias em Caracas, não encontrei ou vi pedintes, miseráveis ou crianças nas ruas. Observei alguns grupos de alcoólatras, mas o que estamos a ver nas cidades brasileiras, por todos os lados, a grande quantidade de miseráveis, apesar das notícias da imprensa, não vi na capital venezuelana. De acordo com as pessoas e o Governo, toda a população que tem necessidade recebe uma cesta de alimentos, que atende a necessidade alimentar das famílias.

O êxodo migratório se dá nas fronteiras do país, onde há uma maior propaganda dos governos de países vizinhos, que executam a política dos EUA, assim como os oligarcas têm maior influência, provocando maiores dificuldades de itens e serviços para a população. Porém é importante destacar que vivem na Venezuela mais de 5 milhões de colombianos, que saíram desse país ao longo dos anos devido à guerra entre os paramilitares, o governo e a guerrilha, o que não alterou após o acordo de paz na Colômbia.

O maior problema que identifiquei foi a falta de notas do Bolívar, a moeda do país. Os pagamentos no comércio são feitos, quase em sua totalidade, por cartão de débito ou crédito. Falta dinheiro em espécie, entretanto isso não impede a realização de vendas e compras de produtos e serviços pelo comércio da cidade. Fiz o câmbio do dólar que levei, na média de U$ 1 por B$ 10.000. Com B$ 12.000 (doze mil bolívares) tomava uma cerveja, ou por B$ 5.000 (cinco mil bolívares) um café, em reais ao valor de R$ 4 e R$2, respectivamente. Pude saborear a comida venezuelana tranquilamente em bares, padarias ou restaurantes na cidade. Apesar de todas as dificuldades que o povo venezuelano enfrenta, especialmente com a cruel guerra midiática e o confisco de bilhões de dólares, por parte dos EUA, a vida no país de Bolívar e Chávez contínua.

Algumas ações do Governo Bolivariano da Venezuela, que pude conhecer e ver, que foram realizadas desde a vitória de Hugo Chávez, em 1998? > Comunas



Um espaço de construção coletiva, proposto por Chávez e iniciado em 10 de agosto de 2012. Congrega os trabalhadores, os indígenas, as mulheres, os LGBTs, os negros, os camponeses e todo o povo, que de forma autogestionária se organiza em sua comunidade para enfrentar e superar a sociedade individualista e de exploração, sustentada pelo capitalismo. Fomenta e fortalece a criatividade e o Poder Popular. Organizam-se por quadras, municípios, comunidades urbanas e rurais. Onde há um agrupamento humano está em processo de formação uma Comuna. Em 2015, existiam 1002 comunas e 44.358 Conselhos Comunais em todo o território nacional . Todo o trabalho é orientado, acompanhado, promovido e incentivado pela Fundação para Desenvolvimento e promoção do Poder Comunal, que busca fortalecer o autogoverno e aprofundar os ideais e práticas do socialismo, proposto por Chávez em três pilares: o bolivarianismo, o cristianismo e o marxismo.

Missão Robinson



Iniciada em 2003, com um projeto piloto em quatro Estados da Venezuela, com a aplicação do método educativo cubano “”Yo, sí puedo” (Eu, sim posso), sendo em seguida aplicado por todo o país. A Missão teve a finalidade de erradicar o analfabetismo, o que foi conseguido após dois anos de trabalho, com a alfabetização de 1.706.145 venezuelanas e venezuelanos. Em seguida, criou-se a Missão Robinson II, desenvolvendo a continuação do processo educativo até a sexta série para quem havia abandonado os estudos e os recém alfabetizados. Até 2010 a Missão Robinson havia logrado a graduação de 577.483 homens e mulheres, distribuídos em 24 estados do país. A Missão Robinson III dedicou-se a desenvolver o hábito da leitura e escrita para toda a população, forjando uma “nova cidadania”. O mesmo programa foi desenvolvido para as pessoas com algum tipo de incapacidade, os detidos no sistema penal e a população indígena. Também enviou brigadistas para a República da Bolívia, que também erradicou o analfabetismo, e a Nicarágua. Afirmam os integrantes que “a missão Robinson é a mãe de todas as missões” . Para se ter uma ideia da grandiosidade da ação, durante o governo do ex-Presidente Chávez, foi publicado e distribuído 150 mil exemplares do livro Contos, de Machado de Assis, para a população.

Missão Bairro Novo Bairro Tricolor



Criada em agosto de 2009 por Hugo Chávez. Dedica-se à transformação integral da habitação dos moradores dos bairros populares em todo o país, criando comunidades humanas em espaços geográficos dignos, seguros e sustentáveis. Busca construir uma comunidade integrada conscientemente na Comuna, como estrutura fundamental da sociedade socialista. Atua na organização popular, planificação territorial, logística e recursos, segurança, defesa territorial e produção comunal. Está estruturada em 250 espaços denominados Corredores nos 24 estados do país, especialmente onde habitam comunidades pobres e de extrema pobreza. Até junho de 2019, entregou 3.309.647 moradias, que contemplaram 10.865.820 pessoas, em um país com 31 milhões de habitantes. O Governo Maduro é responsável pela construção de 2.716.455 residências do total entregue até o momento. Todas as obras são planejadas e construídas pelos próprios moradores, com a orientação de engenheiros e técnicos. Ressalta-se, que, as moradias estão localizadas nos melhores espaços urbanos. Em Caracas, por exemplo, há enormes prédios residenciais ao lado de hotéis como o Meliá. A meta é construir 5 milhões de moradias.

Sistema Nacional de Orquestras e Coros Juvenis e Infantis da Venezuela



O sistema desenvolve desde a mais tenra idade experiência da integralidade do ser e o desenvolvimento de suas faculdades cognitivas por meio da música. O programa atende 1.012.027 crianças e jovens em todos os estados do país. Estão distribuídos em 1.722 orquestras, sendo três profissionais e os demais alunos aptos a integrarem uma orquestra profissional. Há 1.426 corais, 694 grupos de música clássica venezuelana, 1772 grupos de iniciação musical e 266 de música popular, entre outros. O programa, dirigido pelo Maestro Cruz Almado, tem o poder de dar segurança, autonomia e fortalecer a dignidade de meninos e meninas pela arte da música.

Ensino Público e Gratuito



Antes de 1998, existiam pouco mais de 600 estudantes em universidade públicas em todo o país. Atualmente são mais de 100 mil jovens em universidades públicas criadas por Chávez e Maduro. O ensino primário, secundário e universitário é público, atendendo a grande maioria do público. Ainda há instituições de ensino privadas. Toda a educação aplicada desenvolve nos estudantes o conhecimento do blaile, libras e o resgate da história nacional, com a s lutas e conquistas do povo venezuelano.

Uma guerra de novo tipo



Os EUA, com o apoio de alguns governos reunidos no Grupo de Lima, têm desenvolvido uma guerra contínua contra a Venezuela. Esta ação se dá com bloqueio econômico, sabotagens e as constantes sabotagens, inclusive com a ameaça de invasão militar. Entretanto, a grande imprensa e as redes sociais realizam uma guerra contínua propagando mentiras, acusações e criando fantasmas contra a Venezuela e o Governo Nicolás Maduro. Isto se vê nas propagandas sobre a fome no país, a saída de venezuelanos, o discurso de que o presidente é um ditador e tantas outras mentiras propagadas. O Governo Maduro foi eleito em uma eleição que concorreram quase 20 partidos, inclusive da oposição, tendo sido eleito com mais de 67% dos votos. Tem no Governo o apoio de dez (10) partidos, integrados no Polo Patriótico, além de um elevado nível de organização e participação social da grande maioria da população venezuelana.

A mídia tem o papel de criar uma situação internacional que venha a justificar uma possível invasão, assim como os EUA fizeram no Iraque e na Líbia. Em nenhum país do mundo, um parlamentar se autodeclararia presidente da República e estaria livre, respondendo judicialmente e podendo seguir instigando contra o Estado. Se existisse nos EUA um farsante como Juan Guaidó, certamente estaria preso. Na Venezuela, os meios de comunicação da oposição seguem funcionando e propagando inverdades, sustentadas e apoiadas pelo imperialismo norte americano, que tem desestabilizado todo o continente, como fizeram em Honduras, Paraguai e Brasil.



Fotos feitas ao longo da semana em Caracas.
Foto 1 - Ato em apoio ao governo
Foto 2 - Pintura em um muro
Foto 3 - Restaurante
Foto 4 - Tenda sobre as Comunas no FSP
Foto 5 - Debate sobre a Missão Robinson - FSP
Foto 6 - Dados sobre as habitações
Foto 7 - Com Maestro Cruz Almado
Foto 8 - Grupos indígenas
Foto 9 - Populares ao entardecer
Foto 10 - Deosdato Cabelo
Pedro César Batista, jornalista e militante antiimperialista e em defesa da autodeterminação dos povos.

Crônicas de Comunas. Donde Chávez vive. La Estrela roja. Vários autores. 2015.
Missión Robinson. Ministério del Poder Popular para la educacion. 2011.

2 comentários:

Beverly Serrano disse...

¡Gracias Pedro por venir a conocer nuestra verdad y mostrarla al mundo! Venezuela es también tuya...aquí la vida continúa y estamos seguras y seguros de que seguiremos ¡VENCIENDO!

José Lima da Silva filho disse...

Pedro, meu Camarada,seu relato autentica o que a gente sabe ser a realidade da bolivariana Venezuela. Ela é exemplo de dignidade ao mundo que se põe de quatro ao selvagem capital. A camaradagem social deste povo aguerrido há de espalhar-se por toda Grande Pátria. Valeu vou encaminhar p diversos.Abraços

Editado por iMaque - Soluções em Sustentabilidade